<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-750798236973800089</id><updated>2012-02-15T23:27:07.749-08:00</updated><title type='text'>prosaredo</title><subtitle type='html'>prosa: crônica, conto</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://prosaredo.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosaredo.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Ademir Furtado</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12953829384435850908</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-v5Fh-h3qifE/TyqSJshfX4I/AAAAAAAAABU/Zx8z4MqJnlg/s220/ademir-01%255B1%255D.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>23</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-750798236973800089.post-383167012533982185</id><published>2012-02-02T05:49:00.000-08:00</published><updated>2012-02-02T05:53:43.336-08:00</updated><title type='text'>A boa literatura ruim</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;No livro &lt;strong&gt;Angústia&lt;/strong&gt;, de Graciliano Ramos, Luis Silva, é um escritor fracassado. Funcionário público de profissão reforça o salário com a venda dos produtos de sua escassa habilidade literária: discursos para autoridades, poemas para conquistadores despreparados, etc. Em determinada passagem, entediado por ler uma história sem atrativos, ele faz a seguinte afirmação: “Os livros idiotas animam a gente. Se não fossem eles, nem sei quem se atreveria a começar”. E sobre a obra que tem em mãos: “isto é tão ruim que eu, com trabalho, poderia fazer igual”. Levado muito mais pelo autodesprezo do que pela visão crítica, o personagem determina um valor para a má literatura: segundo ele, um escritor desprovido de talento deveria se abastecer apenas de composições de baixa qualidade, pois nelas ele encontra a resignação de não ser o único abandonado pelas musas. O paradoxal é que, com esse raciocínio, ele não seria leitor da ficção da qual é o personagem principal, um exemplo indiscutível de realização de alto nível na literatura brasileira.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Mas, se Luis Silva tivesse se dedicado mais à consolidação de sua carreira literária, teria encontrado outras utilidades para a literatura ruim. Por exemplo, a de material de estudo. Então, ele concluiria que um escritor não se alimenta só de obras sublimes. Uma seqüência mal estruturada de cenas e ações pode ser um excelente ponto de referência se o leitor se propuser o papel de revisor, e em vez de condenar o livro, brincar de reescrevê-lo, ensaiando soluções para as passagens que julga problemáticas.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Animado por esses argumentos eu me submeti ao sacrifício de ler &lt;strong&gt;A Divina Pastora&lt;/strong&gt;, de José Antônio do Vale. Basta algumas páginas em contato com essa obra para o leitor descompromissado abandonar qualquer intenção de ir até o fim, ou se questionar sobre os propósitos de persistir numa tarefa tão enfadonha. Esse livro possui o mérito de ser o primeiro romance da literatura gaúcha, e um dos primeiros da literatura brasileira, publicado em 1847. O autor passou para a história com o apelido de Caldre e Fião, que hoje dá nome a uma rua e uma linha de ônibus em Porto Alegre. Talvez o pioneirismo seja um álibi para amenizar as várias falhas dessa história: trama desconexa, personagens inverossímeis, cenário idealizado sob influência do Romantismo europeu. Para completar, o herói, várias vezes denominado “o monarca das coxilhas”, é um cavaleiro medieval transportado para o pampa gaúcho, onde encontra o espaço ideal para vivenciar os valores de honra e coragem entre os rebeldes farroupilhas. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Até então, o pior exemplo de literatice com o qual eu tinha me ocupado nos últimos anos, era &lt;strong&gt;Núpcias de Fogo&lt;/strong&gt;, de Nelson Rodrigues. Lá estão alguns exemplos bem expressivos de narrativa mal engendrada: ações sem nenhuma motivação e personagens sem história, sem nenhum tipo de enraizamento, seja social ou filosófico, arrastados em cena apenas por um implausível desequilíbrio emocional.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O personagem Luis Silva é um homem realista. Tem perfeita noção da própria mediocridade, e não se perde em crises de consciência por produzir textos sob encomenda, que receberão assinatura de estranhos. Com os trocados obtidos na venda desses trabalhos, defende o aluguel e toca a vida em frente. O problema é que ele se utiliza da má literatura para justificar sua incapacidade de criar algo de valor artístico. Tivesse ele traçado um projeto de autoformação, aproveitaria os livros mal escritos para se exercitar na técnica de escrever. Em vez de apelar para a autoindulgência derrotista do tipo “isso até eu faço”, enriqueceria o prazer da leitura se, posicionado no lugar do autor, pensasse em alternativas para melhoria do texto. Esse pode ser um caminho interessante para enfrentar as diversidades da vida literária como ela é. Com essa atitude de leitor todo livro é bom e até um romance de Nelson Rodrigues pode ser uma experiência proveitosa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/750798236973800089-383167012533982185?l=prosaredo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosaredo.blogspot.com/feeds/383167012533982185/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=750798236973800089&amp;postID=383167012533982185' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/383167012533982185'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/383167012533982185'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosaredo.blogspot.com/2012/02/boa-literatura-ruim.html' title='A boa literatura ruim'/><author><name>Ademir Furtado</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12953829384435850908</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-v5Fh-h3qifE/TyqSJshfX4I/AAAAAAAAABU/Zx8z4MqJnlg/s220/ademir-01%255B1%255D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-750798236973800089.post-8628554438376583496</id><published>2011-12-08T04:14:00.000-08:00</published><updated>2011-12-08T04:17:29.289-08:00</updated><title type='text'>A lei de Sócrates</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Desde os meus primeiros momentos de consciência crítica, me considero um sujeito desprovido de deuses. Nunca me empolguei com a possível existência de seres superiores e abstratos, habitantes de esferas celestiais. Mas mantenho essa postura como um valor subjetivo, sem tentar convencer os crentes a respeito das minhas descrenças. Por isso, fiquei meio surpreso, dias desses, numa mesa de bar, quando um inimigo público das religiões profetizava o advento de um dia dedicado ao ateísmo, algo do tipo “o dia do orgulho ateu”. A mania de querer contextualizar tudo me levou a uma reflexão sobre essa obsessão atual pela visibilidade. Minha quase formação de sociólogo suspeita que isso é conseqüência do tal multiculturalismo, em que cada seguimento da sociedade busca conquistar o seu espaço e registrar sua presença. Mais do que isso, escancarar que tem orgulho de ser o que é. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Talvez um psicólogo encontre explicações diferentes: uma ânsia de ser aceito e reconhecido para encontrar legitimidade. Certos filósofos asseguram que o indivíduo só encontra sua essência no olhar dos outros, ao ser visto pelos outros.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Algumas idéias costumam se conectar a outras, e assim, eu lembrei de outro fato da mesma natureza, que virou notícia meses atrás. Em algum lugar do Brasil, um parlamentar apresentou um projeto de lei para implantar o dia do orgulho heterossexual. De imediato, achei que fosse mais uma manchete do Sensacionalista, “o jornal isento de verdade”. Mas não era. Esse disparate tinha pretensões de seriedade. Para ser sincero, não me interessei mais pelo assunto e não sei qual foi o resultado de tamanha bizarrice. Mas não resisti à tentação de fantasiar possíveis desdobramentos dessa iniciativa. Uma delas seria o surgimento de dispositivos jurídicos para resguardar o método natural de conservação da humanidade. Se já existe a preocupação de preservar as florestas, os rios, os passarinhos, as moscas, os mosquitos, as pererecas, por que não se empenhar pela proteção mais específica da espécie humana? E já que as mulheres foram contempladas com o dia delas, seria justo, agora, atender aos interesses dos homens. Assim, não seria surpresa uma lei que proibisse as mulheres de se esquivarem às investidas masculinas. Imagine-se um defensor de causa tão nobre quanto a sobrevivência da humanidade argumentando que o maior entrave a uma orientação heterossexual consequente é essa mania que as mulheres têm de querer conversar várias vezes antes de atender as reivindicações masculinas. Esse arauto da proliferação humana passaria a enumerar casos em que homens, ou por falta de energia, ou por carência de habilidade, desistiram antes do almejado sucesso. E numa época de plena liberdade de expressão, onde qualquer desatino deve ser acolhido como legítima manifestação, ele enumeraria mais uma série de ponderações para provar que esse comportamento feminino é puro preconceito contra homens heterossexuais, e como tal, deveria ser combatido com uma legislação séria e fiscalização eficaz.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas, as divagações fantasiosas não sobrevivem aos ataques da razão, e concluí que um regulamento desses seria tão inútil quanto desnecessário, porque não resolveria o problema das convicções interiores. Creio que o maior orgulho que se pode ter é o da experiência da própria capacidade e das habilidades para conquistar um objetivo. Seja a paz interior de viver sem se agarrar a entidades imaginárias, seja o reconhecimento do poder para seduzir a mulher desejada. Se Sócrates recebeu alguma revelação após visitar o oráculo de Delfos, foi a certeza de que a lei mais poderosa que existe é o autoconhecimento. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/750798236973800089-8628554438376583496?l=prosaredo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosaredo.blogspot.com/feeds/8628554438376583496/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=750798236973800089&amp;postID=8628554438376583496' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/8628554438376583496'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/8628554438376583496'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosaredo.blogspot.com/2011/12/lei-de-socrates.html' title='A lei de Sócrates'/><author><name>Ademir Furtado</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12953829384435850908</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-v5Fh-h3qifE/TyqSJshfX4I/AAAAAAAAABU/Zx8z4MqJnlg/s220/ademir-01%255B1%255D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-750798236973800089.post-8913978051953871458</id><published>2011-11-12T02:18:00.000-08:00</published><updated>2011-11-12T02:24:08.455-08:00</updated><title type='text'>Currente Calamo</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;A maior pedra no sapato de qualquer escritor é o clichê, essa faca que de tão usada já não corta, ainda que a língua esteja bem afiada. Um amante das letras trabalha com afinco para lançar nova luz sobre uma passagem e quando se dá conta, lá está aquela frase feita, aquela idéia pronta. E aí não adianta querer tapar o sol com uma peneira, porque a verdade salta aos olhos, e para um bom leitor, meio clichê basta para estragar um texto. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Falar de clichê é chover no molhado, porque desde que o mundo é mundo que o ser humano opta comodamente pela lei do menor esforço. Por isso, carrega sempre no bolso meia dúzia de idéias prontas e frases feitas, que usa e abusa, a torto e a direito. Pensar é chato, cansativo, dá trabalho, e ser original exige responsabilidade e um pouco de ousadia. Além do mais, a todo instante há a necessidade de uma comunicação rápida e eficiente, e o clichê já possui um significado consolidado, ao alcance de todos os viventes. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Por isso, é difícil abster-se de beber na fonte das idéias prontas e das imagens surradas, e pode atirar a primeira pedra quem nunca lançou mão das sentenças do senso comum para dar o seu recado. Esse hábito é tão antigo quando caminhar pra frente. Tanto é assim, que existem livros que tratam do assunto. No âmbito nacional temos &lt;strong&gt;O Pai dos Burros&lt;/strong&gt; &lt;strong&gt;– dicionário de lugares-comuns e frases feitas&lt;/strong&gt;, de Humberto Werneck, uma coleção de clichês pinçados em órgãos da imprensa. Mas a leitura mais deliciosa nesse sentido é o &lt;strong&gt;Dicionário das Idéias Feitas&lt;/strong&gt;, de Gustav Flaubert, um opúsculo cheio de ironias, em que o grande romancista deita e rola em cima da boçalidade dos franceses oitocentistas. Flaubert dispensa apresentações. Um renomado escritor que atingiu os píncaros da glória com uma obra literária muito original, e saiu a campo, em altos brados, contra o currente calamo, que não é nada mais do que preguiça mental disfarçada de sabedoria popular. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Agora, fiquei com uma pulga atrás da orelha. Por que será que esse assunto dá tanto pano pra manga? É de bom alvitre que o escritor dê asas à imaginação na hora de traçar as suas linhas, mas se ele não tiver bala na agulha fica à beira de um ataque de nervos diante de cada frase lançada no papel. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;É bem verdade que muitos beletristas gostam de praticar seu ofício ao correr da pena, e não estão nem aí para originalidade de estilo. Mas felizmente, há aqueles, como Flaubert, que se proclamam inimigo público das simplificações retóricas e não medem esforços para dar uma injeção de vitalidade na linguagem. Criadores que não se curvam ao peso do hábito e não se protegem com desculpas esfarrapadas do tipo: “não existe mais nada original para ser dito”, ou: “a vida é cheia de clichês”. Mesmo que seja para dar murro em ponta de faca, eles avançam a passos largos, de cabeça erguida, força hercúlea e idealismo quixotesco. A esses, temos obrigação de tirar o chapéu e aplaudir em alto e bom som, pois são eles que dão um passo à frente no progresso da arte literária. Uma história bem contada, novinha em folha, é tudo de bom. Por outro lado, ler um texto cheio de clichês – vamos combinar – ninguém merece. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/750798236973800089-8913978051953871458?l=prosaredo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosaredo.blogspot.com/feeds/8913978051953871458/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=750798236973800089&amp;postID=8913978051953871458' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/8913978051953871458'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/8913978051953871458'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosaredo.blogspot.com/2011/11/currente-calamo.html' title='Currente Calamo'/><author><name>Ademir Furtado</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12953829384435850908</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-v5Fh-h3qifE/TyqSJshfX4I/AAAAAAAAABU/Zx8z4MqJnlg/s220/ademir-01%255B1%255D.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-750798236973800089.post-2126919279928753522</id><published>2011-09-26T04:36:00.000-07:00</published><updated>2011-09-26T04:47:27.403-07:00</updated><title type='text'>Antigualhas</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O livro &lt;em&gt;Antigualhas&lt;/em&gt;, de Antônio Álvares Pereira, mais conhecido como professor Coruja, é uma relíquia, tanto no sentido literário quanto histórico, porque é uma espécie de registro de nascimento da cidade de Porto Alegre. A introdução de Sérgio da Costa Franco, na edição ERUS, nos apresenta um pouco da biografia do autor. Nasceu no ano de 1806, quando Porto Alegre ainda se limitava ao estatuto de Freguesia. Tornou-se um homem letrado, e foi um dos primeiros professores da comunidade. Já adulto, tomou partido no entrevero dos Farrapos, acabou perseguido, fugiu, e foi se esconder no Rio de Janeiro, onde residiu até a morte. Na Corte, teve atuação constante no meio intelectual. Mas nunca esqueceu suas origens. Tanto que, na década de 80, já no final da vida, se pôs a rememorar a província, através de crônicas publicadas em jornal local. E essas lembranças vieram a constituir o &lt;em&gt;Antigualhas&lt;/em&gt;.. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Mas a Porto Alegre representada nas crônicas transformou-se numa cidade singular, construída por um saudosismo criativo. E o bom humor com que descreve o cotidiano dos porto-alegrenses é o estado de espírito dessa volta ao passado. O caráter de vila fica mais evidente no hábito popular de dar nome à ruas, que na época não passavam de becos ou trilhas. O nome oficial era, em geral, trocado pela alcunha do morador mais ilustre, ou mais conhecido. É o caso do Beco do Fanha, atual Caldas Júnior, assim chamada porque ali morava um sujeito com dificuldades na fala. A Rua do Arroio, hoje Bento Martins, recebia duas denominações. Numa ponta, Beco dos Nabos, referência a um morador que vendia nabos; e na outra ponta, Beco dos Pecados Mortais, uma alusão à conduta moral dos moradores. Na subida de uma determinada ladeira, encontrava-se, a qualquer hora do dia ou da noite, sempre à janela, “a individua mais notável do bairro”. Essa “individua” era tal que “para falar pelos cotovelos não precisava arregaçar as mangas” uma vez que usava roupas que deixavam não só os cotovelos à mostra. E mais ainda, “era conhecida pelo nome de não sei que de bronze, mas por conveniência de pessoas sérias a chamavam simplesmente a Bronze”. E assim se justifica que um canto do centro da capital se chama até hoje de Alto da Bronze. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Outro detalhe importante é o tom afetuoso com que a cidade é retratada. Considerando-se que as crônicas foram escritas após meio século de afastamento, é certo que Porto Alegre se manteve viva na memória afetiva do expatriado. Conclui-se daí, que essa mania de levar Porto Alegre a qualquer lugar que se vai é uma extravagância muito antiga. Não sei se nessa época o chimarrão já era um hábito urbano, mas vale o exercício de imaginar o professor Coruja passeando pelas praias cariocas com uma cuia na mão e uma chaleira de água quente na outra; ou, ao final da tarde, com os olhos perdidos no horizonte, à procura de um pôr do sol igual àquele do Guaíba, que os habitantes de Porto Alegre até hoje insistem em acreditar que é o mais lindo do mundo. Um século antes do surgimento dos dois maiores símbolos dos gaúchos, o Grêmio e o Internacional, a maneira mais eficaz de dizer “ah, eu sou gaúcho”, foi fazer a recriação literária de uma Porto Alegre que não existia mais de fato, mas continuava bem viva no coração do cronista.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Parece que o gaúcho em geral, e o porto-alegrense em particular, sofre até hoje desse dualismo. Por um lado, um desejo de aderir ao movimento global da modernização, viajar, falar língua estrangeira, e de outro, esse enraizamento meio caipira ao local de origem. Sem recorrer a teorias antropológicas, razões metafísicas e condicionamentos históricos, tão ao gosto de elucubrações acadêmicas, o certo é que o habitante de Porto Alegre gosta mesmo é de permanecer na cidade, mesmo que esteja fora. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/750798236973800089-2126919279928753522?l=prosaredo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosaredo.blogspot.com/feeds/2126919279928753522/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=750798236973800089&amp;postID=2126919279928753522' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/2126919279928753522'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/2126919279928753522'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosaredo.blogspot.com/2011/09/antigualhas.html' title='Antigualhas'/><author><name>Ademir Furtado</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12953829384435850908</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-v5Fh-h3qifE/TyqSJshfX4I/AAAAAAAAABU/Zx8z4MqJnlg/s220/ademir-01%255B1%255D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-750798236973800089.post-3403856848367246692</id><published>2011-09-10T07:16:00.000-07:00</published><updated>2011-09-10T07:24:36.092-07:00</updated><title type='text'>Longe do Temor Servil</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Este blog ficou um tempo meio esquecido por um motivo justificado: dedicação exclusiva a um projeto que virá a público ainda este ano. Mas não parei de ler. Pelo contrário. Só que me envolvi apenas com livros relacionados ao meu interesse do momento. E uma dessas leituras foi &lt;em&gt;&lt;strong&gt;Brava Gente Brasileira&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;, de Márcio Moreira Alves. Para começar, é bom esclarecer que a obra não tem nada a ver com a série homônima da Globo, levada ao ar alguns anos atrás. Trata-se de uma coleção de crônicas publicadas no jornal &lt;em&gt;O Globo&lt;/em&gt; nos anos 2000-2001, e que poderia ter como subtítulo o nome de um dos capítulos: &lt;em&gt;o Brasil que funciona&lt;/em&gt;. Mas o autor passa longe da ingenuidade ufanista que ainda sobrevive em algumas mentalidades. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Para quem não sabe, &lt;a href="http://www.marciomoreiraalves.com/"&gt;Márcio Moreira Alves &lt;/a&gt;foi o pivô de uma das maiores atrocidades da História do Brasil dos últimos tempos: o AI-5. Na verdade, o famigerado dispositivo já estava pronto, e os generais só aguardavam um pretexto para tirá-lo da gaveta. E a alegação que faltava surgiu com um discurso do então jovem deputado, onde os militares eram apontados como responsáveis por atos de abuso de poder e corrupção, que, aliás, todos conheciam, mas ninguém possuía a coragem necessária para denunciar. Jovem mas não ingênuo, o parlamentar encerrou o pronunciamento e saiu da tribuna direto para o exílio no exterior, pois sabia o futuro que lhe aguardava, caso permanecesse no país. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Voltou dozes anos mais tarde e decidiu conhecer o Brasil. Então, embrenhou-se Brasil adentro a procurar programas sociais destinados a melhorias das condições de vida dos brasileiros. Era o momento propício para essa busca, pois a nação começava a despertar do sono a que foi submetida por mais de vinte anos, e a reconstrução da cidadania tornou-se o primeiro item da pauta de reivindicações sociais. E em cada canto dessa imensidão territorial, e em cada aspecto da diversidade cultural, um problema particular e um desejo comum: sobreviver da maneira mais digna possível. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E nessa radiografia cultural do território brasileiro detectou alguns sintomas importantes. A maioria das iniciativas que apresentaram resultados elogiáveis no âmbito microssocial é de empresas privadas, organizações não governamentais, ou algum idealista que dedica tempo e experiência em benefício da comunidade. Nesses casos, o trabalho é resultado de uma dedicação particular ao bem estar coletivo, baseada na convicção de que o social é mais importante que o individual. As propostas oriundas de órgãos governamentais, ou emperram no peso da burocracia, ou se desviam por caminhos diversos. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Essas constatações contrariam certas crenças, da época e de hoje, que confundem aumento de renda com desenvolvimento social. Ainda há pessoas pelo Brasil afora convictas de que de nada serve um salário maior sem uma infraestrutura adequada para que esse novo padrão de vida seja efetivamente aproveitado.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;As causas que impedem alguns programas oficiais de dar resultados são conhecidas de todo mundo. E um dos méritos do livro é não cair na simplificação moralista de atribuir a ineficiência do poder público à falta de caráter das pessoas que o exercem. Uma pausa para reflexão sobre o tema e conclui-se que a questão é mais profunda. Os desvios de conduta de administradores públicos não são resultado de incapacidade moral, e sim o sintoma de uma estrutura de poder autoimune e autoindulgente, mais ocupada em justificar os erros do que trabalhar pelos acertos. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Profissional do jornalismo antes de se tornar deputado, o autor sabe disso, embora não diga exatamente com essas mesmas palavras. O importante é ter feito um trabalho que apresenta outra visão dos problemas nacionais, e sugerir soluções que levam em conta as peculiaridades de cada situação. Uma abordagem muitas vezes otimista, mas sem descambar para o ufanismo irresponsável que já orientou tantos desatinos nacionais. E sem o temor de desagradar nem amigos nem partidários.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/750798236973800089-3403856848367246692?l=prosaredo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosaredo.blogspot.com/feeds/3403856848367246692/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=750798236973800089&amp;postID=3403856848367246692' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/3403856848367246692'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/3403856848367246692'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosaredo.blogspot.com/2011/09/longe-do-temor-servil.html' title='Longe do Temor Servil'/><author><name>Ademir Furtado</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12953829384435850908</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-v5Fh-h3qifE/TyqSJshfX4I/AAAAAAAAABU/Zx8z4MqJnlg/s220/ademir-01%255B1%255D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-750798236973800089.post-3504365431469591891</id><published>2010-10-01T06:26:00.000-07:00</published><updated>2010-10-01T06:28:38.344-07:00</updated><title type='text'>Ficções perigosas</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:worddocument&gt;   &lt;w:view&gt;Normal&lt;/w:View&gt;   &lt;w:zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:hyphenationzone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;   &lt;w:punctuationkerning/&gt;   &lt;w:validateagainstschemas/&gt;   &lt;w:saveifxmlinvalid&gt;false&lt;/w:SaveIfXMLInvalid&gt;   &lt;w:ignoremixedcontent&gt;false&lt;/w:IgnoreMixedContent&gt;   &lt;w:alwaysshowplaceholdertext&gt;false&lt;/w:AlwaysShowPlaceholderText&gt;   &lt;w:compatibility&gt;    &lt;w:breakwrappedtables/&gt;    &lt;w:snaptogridincell/&gt;    &lt;w:wraptextwithpunct/&gt;    &lt;w:useasianbreakrules/&gt;    &lt;w:dontgrowautofit/&gt;   &lt;/w:Compatibility&gt;   &lt;w:browserlevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt;  &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:latentstyles deflockedstate="false" latentstylecount="156"&gt;  &lt;/w:LatentStyles&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 10]&gt; &lt;style&gt;  /* Style Definitions */  table.MsoNormalTable  {mso-style-name:"Tabela normal";  mso-tstyle-rowband-size:0;  mso-tstyle-colband-size:0;  mso-style-noshow:yes;  mso-style-parent:"";  mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt;  mso-para-margin:0cm;  mso-para-margin-bottom:.0001pt;  mso-pagination:widow-orphan;  font-size:10.0pt;  font-family:"Times New Roman";  mso-ansi-language:#0400;  mso-fareast-language:#0400;  mso-bidi-language:#0400;} &lt;/style&gt; &lt;![endif]--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 3cm; line-height: 200%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;A capacidade do ser humano de criar coisas novas é assombrosa. Dia desses encontrei num jornal mais uma constatação dessa verdade incontestável. A novidade veio da França, pais que já contribuiu com tantas e tão maravilhosas idéias para o aprimoramento da humanidade. Pois foi justamente um francês que teve uma idéia das mais mirabolantes. Trata-se de uma empresa de seqüestro. Não, ainda não é a terceirização do banditismo. Assim falando, parece algo do tipo: um bando planeja seqüestrar um milionário, mas pretende evitar os riscos, ou não quer se estressar muito, então contrata o serviço de uma empresa especializada e pronto. Nada disso. Os clientes são as próprias vítimas. Funciona mais ou menos assim: uma pessoa deseja ser surpreendida por emoções mais fortes e viver uma experiência que a vida rotineira não lhe oferece. Então, em vez de pensar em algo mais simples, como servir de voluntária na ajuda de flagelados de algum terremoto, ou se oferecer de cobaia para testes da nova vacina contra a AIDS, por exemplo, ela contrata uma empresa que vai lhe proporcionar a fascinante aventura de ser seqüestrada. E a coisa é de nível profissional. O maluco compra um pacote seqüestro, que consiste em ser abordado na rua, jogado dentro de um carro, levado para lugar ignorado e não sabido, mantido num cativeiro onde vai sofrer todas as privações e humilhações de um seqüestro de verdade. Tudo estipulado num contrato previamente assinado. E bem pago. Um detalhe interessante é que a vítima voluntária não sabe onde e quando o serviço será executado, o que torna a experiência ainda mais excitante, pois no momento crucial desse despropósito todo, ela não saberá com certeza se está tendo a solicitação atendida ou sofrendo um ato verdadeiro de violência. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 3cm; line-height: 200%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Fiquei tão impressionado com o assunto que sai a comentar com todo mundo e descobri mais um exemplo de sandice da mesma natureza. Essa vem da Inglaterra. Um hotel que oferece aos seus hóspedes um serviço de extrema utilidade nos dias atuais: ataque terrorista. Ao preencher a ficha no hotel o hóspede já faz o pedido. E quando ele menos espera, ou espera, mas não sabe quando vem, o quarto é invadido por homens armados com todo arsenal de guerra possível de ser carregado nas mãos. A vítima, sob ameaças, humilhações e xingamentos é trancada numa peça escura, e mantida na mira de metralhadoras e fuzis. O cenário também é preparado com requinte. Helicópteros sobrevoando o hotel, gente disparando pelos corredores, gritos, sirene de polícia. Tudo de brincadeira. E a exemplo dos franceses, aqui o freguês também não sabe se esse é o serviço contratado ou um ataque de verdade. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 3cm; line-height: 200%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Isso me lembrou de um conto de Moacyr Scliar, intitulado &lt;b style=""&gt;&lt;i style=""&gt;Bandido&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;. Não sei se o nosso imortal conheceu alguma dessas empresas exóticas, mas a situação ficcional é bem parecida. Um clube social oferece um serviço muito emocionante aos associados. Há um empregado na casa, cuja função é contemplar os sócios que ainda não tiveram o privilégio de sentir os arrepios provocados por um assalto. O mimo é opcional, evidentemente, e sob solicitação prévia. &lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;O delinquente improvisado se põe de tocaia no estacionamento e quando chega um freqüentador do clube, ele aparece de revólver não mão, anuncia o assalto. Mas a arma é de plástico, o espoliado, derruba o falso marginal no chão, dá-lhe uns pontapés no rosto e vai ao encontro dos seus parceiros, jogar carta. &lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 3cm; line-height: 200%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Enquanto a brincadeira consistir em um prazer masoquista, tudo bem, cada um se diverte como pode. O problema é se algum dia alguém resolve inverter a situação. Quer dizer, brincar de ser um terrorista, ou um seqüestrador. Aí a coisa pode não ser mais tão divertida. Pelo menos para quem ficar na posição passiva. E aqui me vem à lembrança mais um exemplo muito interessante: o Alex, do livro/filme &lt;b style=""&gt;Laranja Mecânica&lt;/b&gt;. Ele passava as noites perambulando pelas ruas, com um grupo de amigos, praticando todo tipo de violência: assalto, espancamento, estupro. Os pais tinham condições de lhe dar tudo o que ele precisava para viver.&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;Mas, roubar e espancar pessoas era muito mais divertido. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 3cm; line-height: 200%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Li em algum lugar, mas não lembro mais onde e nem quem escreveu, que a humanidade está passando por um processo bem acentuado de infantilização. Pode ser que os adultos tenham se cansado dos brinquedos tradicionais feitos para eles e inventaram outra brincadeira: fazer de conta que são crianças brincando de gente grande. Seja qual for a explicação, uma coisa parece claro: a vida real está deixando de ser prazerosa e está cedendo lugar a simulacros muito extravagantes. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/750798236973800089-3504365431469591891?l=prosaredo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosaredo.blogspot.com/feeds/3504365431469591891/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=750798236973800089&amp;postID=3504365431469591891' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/3504365431469591891'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/3504365431469591891'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosaredo.blogspot.com/2010/10/ficcoes-perigosas.html' title='Ficções perigosas'/><author><name>Ademir Furtado</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12953829384435850908</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-v5Fh-h3qifE/TyqSJshfX4I/AAAAAAAAABU/Zx8z4MqJnlg/s220/ademir-01%255B1%255D.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-750798236973800089.post-2944985581669668140</id><published>2010-09-03T05:00:00.000-07:00</published><updated>2010-09-03T05:03:46.047-07:00</updated><title type='text'>A falta que faz um herói</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Na minha infância não tinha super-herói. Não estou falando de um pai super-protetor, um tio malucão, ou um irmão mais velho metido a sabe-tudo. Refiro-me a essa legião de entidades maravilhosas onde as crianças se refugiam do convívio dos adultos. Super-homem, Batman, Homem-aranha, nada disso me empolgava. E segui, por vários anos ainda, desacompanhado de qualquer um desses semideuses. Nunca fui um adolescente deslumbrado por nenhuma banda de rock, nenhum astro pop. Minha idolatria se limitava à curiosidade por alguma nova descoberta, mas sem muito fanatismo. Tive uma caída pelo Raul Seixas, de quem sabia quase todas as letras de cor; depois, pelo Chico Buarque, onde, mesmo sendo garoto, eu vislumbrava o humor e a irreverência. Mas não era por isso, porque na época eu nem sabia o significado da palavra irreverência. Talvez fosse apenas intuição. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Por outro lado, minha devoção era toda consagrada ao Super Pateta, a única figura dos gibis pela qual eu me deslocava até a banca de revista e gastava o troco da matinê de domingo. Da mesma maneira, não perdia um só episódio das aventuras de Maxwell Smart, o agente 86, o maior paspalho de todos os tempos a ocupar um cargo de detetive. Ainda hoje me impressiona essa antiga preferência pelos patetas.     &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Meu interesse por aventuras fictícias despertou um pouco mais tarde. Quando me dei conta do atraso, pulei a etapa dos intrépidos mascarados e fui, já na adolescência, buscar a companhia de gente mais verossímel. E uma das primeiras criaturas a me aparecer foi o Aliocha Karamazov. Como me compadeci do desespero do coitado, a dúvida quanto à inocência do irmão querido, misturada com a dor pelo assassinato do pai. Mais adiante, viajei por terras distantes atrás de Philip Carey e sua servidão quase desumana aos caprichos da amada Mildred. Cavalguei pela Espanha ao lado de D. Quixote, sempre na luta inútil contra inimigos inexistentes, e fui aportar a uma ilha desconhecida na embarcação de Robson Crusoé, naufragado no desespero de recomeçar uma existência fora de todos os parâmetros anteriores.  &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Assim, eu descobria um universo novo, habitado por pessoas inseguras, atormentadas, dilaceradas por dúvidas existenciais, muito distante das fantasias juvenis delimitadas por mocinhos e bandidos. Depois, já em terras brasileiras, outras amizades surgiram: Brás Cubas e o vazio de uma existência medíocre; Riobaldo e a eterna dúvida sobre sua própria natureza. Todos eles indivíduos angustiados e impotentes para superar os condicionamentos a que foram submetidos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A intensa convivência com esses personagens me deixou mais resignado com as fragilidades humanas. Por conseguinte, nem preciso me armar de coragem para andar na rua sem o uniforme da invencibilidade. Às vezes, quando tenho pressa, até seria interessante me transformar no Nacional Kid e sair voando, pelo menos para evitar congestionamentos de trânsito. Mas, tenho de aceitar minha condição de humano limitado e me movimentar caminhando, ou, no máximo, no volante de um carro sem nenhum recurso extraordinário, nem de longe parecido com o do homem morcego. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Deve-se considerar a importância do super-herói como gerador de processos cognitivos durante o período de estruturação da psique, elaborando um sistema de signos com os quais os infantes vão se nortear pelo resto da vida. Como são representações de força descomunal, invencíveis, inspiram ousadia para enfrentar as adversidades futuras. Nos estágios posteriores, comumente chamados de maturidade, esses heróis são substituídos por um time de futebol, uma religião, uma profissão, um conjunto de valores morais, qualquer coisa, em fim, capaz de indicar algum rumo, seja lá qual for.  E assim os adultos se acomodam com facilidade em papéis confortáveis, distintivos de identidade no meio social. Um exemplar chefe de família, sempre preocupado com proteção dos rebentos; um empresário inovador, destinado a abrir novos horizontes para o desenvolvimento econômico de sua comunidade; ou, ainda, um líder espiritual, cuja existência se dedica a conduzir o seu rebanho para o caminho da salvação. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Como já disse, meus ídolos não eram os mais recomendados para uma introjeção saudável. O Super-pateta seguidamente se estatelava no chão ao acabar o super-amendoim no meio de um vôo; o Max, muitas vezes, perseguia a própria sombra pensando se tratar de um agente da Kaos; Dom Raulzito morreu de cirrose, aos 44 anos, deixando uma multidão de fãs na orfandade. Só restou o Chico. E esse virou escritor. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Com esses referenciais, o apelo à palavra escrita pareceu o meio mais viável para ir em busca do tempo perdido. Na carência de outros recursos, tomei gosto por essa brincadeira de tecer espaços irreais, povoados por habitantes imaginários. Mas fui buscar os modelos naquelas pessoas mortificadas pelas necessidades vitais, enredadas em novelos de dúvidas e inseguranças.  Ainda me faltam os super-poderes para dominar as técnicas da criação e abater os vilões mais traiçoeiros, como as frases feitas, o lugar comum e os clichês em geral. Nada que uma disposição heróica não supere. Quem sabe um dia eu adquira a capacidade de, com um simples piscar de olhos, gerar uma obra perfeita. Mas aí, provavelmente, vou perder a vontade de escrever. Essa pretensão de recriar tudo é uma característica de quem não consegue andar entre os mortais com a desenvoltura daqueles seres indestrutíveis, cheios de vigor e bravura, constitutivos do universo infantil.  É uma obsessão de quem precisa forjar seus próprios heróis.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/750798236973800089-2944985581669668140?l=prosaredo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosaredo.blogspot.com/feeds/2944985581669668140/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=750798236973800089&amp;postID=2944985581669668140' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/2944985581669668140'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/2944985581669668140'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosaredo.blogspot.com/2010/09/falta-que-faz-um-heroi.html' title='A falta que faz um herói'/><author><name>Ademir Furtado</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12953829384435850908</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-v5Fh-h3qifE/TyqSJshfX4I/AAAAAAAAABU/Zx8z4MqJnlg/s220/ademir-01%255B1%255D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-750798236973800089.post-3856897282956869248</id><published>2010-08-02T07:36:00.000-07:00</published><updated>2010-08-02T07:49:37.190-07:00</updated><title type='text'>A cultura da Burrice</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;No texto do mês passado eu falei sobre um livro que caiu em minhas mãos por acaso, e vislumbrei a possibilidade de voltar a falar sobre ele. E aqui estou novamente, pois seria injusto dedicar apenas três linhas a um livro tão interessante. Também mencionei a sintonia entre uma das partes e o tema do qual me ocupava. Mas, ao me debruçar sobre a obra com mais cuidado, outro item me atraiu para rumos diferentes. Só para lembrar, trata-se de &lt;strong&gt;Não contem com o fim do livro&lt;/strong&gt;, um bate-papo entre Umberto Eco e Jean Claude-Carriere, intermediado por Jean-Philippe de Tonnac. E o trecho responsável por me desviar do caminho anterior se chama &lt;em&gt;O elogio da burrice&lt;/em&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt; &lt;br /&gt;De início, pode parecer estranho a estultícia despertar o interesse entusiasmado de dois grandes nomes da Cultura Ocidental. Mas, eles se justificam. A dificuldade de entendimento não é um entrave na vida da humanidade. Ao contrário, ela gerou obras capitais. E os dois escritores não perdem a oportunidade de fazer uma lista enorme, não só das sandices proferidas por pessoas de algum relevo na história do mundo, como também dos livros germinados na aridez da palurdice. A burrice, segundo eles, é muito mais fecunda que a inteligência, porque produz mais material para reflexão. As idiotices são muito mais reveladoras do espírito da época porque refletem os valores aceitos como normais. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Bastante ilustrativa e bem humorada é a distinção feita entre imbecilidade e estupidez.  Marca registrada do imbecil é dizer a coisa errada no momento inoportuno. É o eterno protagonista de gafes, embora suas tolices possam ter até algum fundamento lógico. Portanto, a imbecilidade é uma inabilidade social. Já a estupidez é de natureza lógica. O estúpido não consegue raciocinar direito, suas patranhas são sempre desencontradas. Porém, uma característica desse último é a sinceridade em bravatear sua inépcia de maneira altissonante, sempre que houver uma oportunidade. Esse aspecto levou a uma definição importante: “A burrice é uma forma de administrar a estupidez com orgulho e assiduidade” &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Sob o efeito de tiradas tão espirituosas, a gente se põe a matutar sobre outras formas corriqueiras de manifestação de nescidade. Uma delas é a confusão geral entre conhecimento e informação. A pressa em mandar um recado urgente e ser lembrado a qualquer custo deve ser o responsável por essa falta de discernimento. Um exemplo muito comum nos dias de hoje. Um sujeito sofre de incurável preguiça mental, mas deseja ardentemente parecer interessante no seu perfil no Orkut ou no Facebook. Sem hesitar, ele recorre ao Google, digita uma palavra mágica, e um mundo de janelas se abre no horizonte. De súbito, pelas páginas virtuais desse fantástico universo se espalha uma incrível coleção de jericadas com embalagem de erudição, prontas para serem recicladas.  E os tópicos mais valorizados são os poemas e frases atribuídos a escritores famosos. Nesse caso, a simples folheada de uma obra autêntica do autor em questão seria o suficiente para duvidar da suposta autoria. Mas, isso é importante? O texto é super legal e bem adequado para ostentar um pouco de cultura. O único problema é que cultura não significa necessariamente bom desempenho do intelecto, e essa atitude só escancara um nível lamentável de ignorância. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Outra demonstração de indigência intelectual encontrada atualmente é o gosto por POLÊMICA. Não, não estou me referindo à troca de idéias, ao antagonismo acalorado de pontos de vista. É ao vocábulo mesmo. Essa palavra tão banalizada, sobretudo na mídia, para classificar qualquer bate-boca mais exaltado. Uma dessas celebridades instantâneas, cuja única atividade é ser famosa, divulga uma bizarrice de suas preferências pessoais, pronto, algum órgão de imprensa já corre a chamar o público para palpitar sobre o assunto. E aí começa um desfile patético de asneiras modernas e preconceitos arcaicos. Uma telenovela, numa evidente estratégia para atingir maior número de consumidores dos produtos que divulga, coloca em debate uma situação supostamente de importância coletiva. É o bastante para que se veja nos principais veículos de comunicação o acúmulo de artigos com pretensões de enfoque original, esquartejando o assunto em pedaços mais fáceis de assimilar, onde o raciocínio não vai além dos clichês do senso comum enfeitados com retórica cientifica.  &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E por falar em telenovelas, esse é indiscutivelmente o terreno mais fértil para a propagação da toleima. Não há necessidade de se ligar um aparelho de tv para tomar conhecimento das peripécias das personagens televisivas, pois os jornais apresentam diariamente o resumo das próximas cenas, com o mesmo destaque de uma votação no Congresso Nacional. E para quem não lê os matutinos, basta entrar no ambiente de trabalho que as colegas se encarregam de atualizar as novidades. Eu, por exemplo, sou um noveleiro assim como fumante. Um exame do meu pulmão provavelmente detecte sinais de intoxicação, mesmo sem eu jamais ter posto um cigarro na boca, só por circular no mesmo espaço com tabagistas irresponsáveis. Com a mesma paciência e resignação suporto os comentários diários dos capítulos novelescos. Como o suplício é inevitável aproveito, em compensação, para refletir sobre alguns pontos.  E o que mais chama atenção é a superficialidade na condução dos enredos. As tramas se limitam a mostrar pura e simplesmente comportamentos individuais, determinados por idiossincrasias, preferências pessoais, manias em geral. Jamais uma atitude é tomada num contexto de tensões sociais, ou dúvidas existenciais. Com isso, os bons e os maus são logo de início bem definidos. E essa visão maniqueísta indica muito bem o nível de compreensão exigido para o acompanhamento da história. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Até aí nada demais, pois lixo cultural sempre existiu, até na Grécia clássica, quanto mais numa sociedade globalizada. Espantoso mesmo é a voracidade da população para engolir tanta baboseira. E mais ainda, a eficiência com que a sociedade é teleguiada até nos questionamentos mais significativos, a ponto de se permitir aboiar por polemículas inúteis.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Alguém poderá argumentar que estas digressões estão com quatro décadas de atraso, pois a televisão despeja nos lares brasileiros várias toneladas de dejetos culturais todos os dias, há mais de quarenta anos. E eu concordaria, com uma ressalva. A imprensa e os acadêmicos se deixaram soterrar pela avalanche há menos tempo. E encerro esta ladainha com a sugestão oferecida por Eco-Carrière, quando dizem que as idiotices são o espelho de uma época. Essa afasia generalizada pode não decretar o fim do livro, mas certamente empobrece muito a qualidade da leitura.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/750798236973800089-3856897282956869248?l=prosaredo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosaredo.blogspot.com/feeds/3856897282956869248/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=750798236973800089&amp;postID=3856897282956869248' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/3856897282956869248'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/3856897282956869248'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosaredo.blogspot.com/2010/08/cultura-da-burrice.html' title='A cultura da Burrice'/><author><name>Ademir Furtado</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12953829384435850908</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-v5Fh-h3qifE/TyqSJshfX4I/AAAAAAAAABU/Zx8z4MqJnlg/s220/ademir-01%255B1%255D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-750798236973800089.post-5641944079927159367</id><published>2010-07-02T04:32:00.001-07:00</published><updated>2010-07-02T04:39:14.187-07:00</updated><title type='text'>os mensageiros secretos</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Há muitos anos eu desconfio que os livros são mensageiros secretos. Tão secretos, que só eles sabem o momento em que devem aparecer para nos dar a mensagem. Eu, como todo bibliófilo, tenho mais livros do que o tempo disponível me permite ler. E eles vão ficando ali na bancada, empilhados. E a pilha vai crescendo. Já aconteceu, por exemplo, de me faltar inspiração para escrever alguma coisa e resolvi dar uma arrumada na bagunça. Comecei a separar os volumes por assunto, prioridade, coisas assim. Lá pelas tantas. um deles se agarrou em minhas mãos e me disse: “Quero que tu me leias agora, tenho uma coisa importante pra te contar”. Olhei o título: &lt;strong&gt;Os Segredos da Ficção&lt;/strong&gt;, de Raimundo Carrero. Antigamente, eu não percebia esses chamados, nem dava bola quando um livro se atirava aos meus pés, saltava da estante. Achava que era tudo só por brincadeira. Mas depois, fui aprendendo a dar atenção quando um deles me chama. No caso daquele, até tentei deixá-lo num canto, e continuar a arrumação. Mas ele insistiu, se atirou em cima da mesa, e caiu aberto, com o sumário virado pra cima.  E lá estava, em caracteres grandes, o nome da primeira parte: &lt;em&gt;O processo criador&lt;/em&gt;. Achei que não era justo ignorar um aviso tão importante. E esse exemplo não foi o único. Normalmente, cada livro que leio é uma projeção dos meus pensamentos ou uma resposta aos meus anseios. Mas essa identificação só se manifesta durante o processo de assimilação do conteúdo, o que torna a leitura ainda mais fascinante. Então, se estabelece um diálogo intenso com o livro, pois eu o escuto, aceito, argumento, comparo o que ele me diz com a situação que estou vivendo. Ele, por sua vez, me ouve, dá conselhos, aponta caminhos. Esses são os livros lidos da primeira à última frase, sem pular uma única vírgula.  &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Mas, há também aqueles livros que não me permitem decifrar facilmente o enunciado. Chegam cheios de reticências, ficam na volta, como que me observando, ou me preparando para dar a notícia. Acho que percebem que não estou preparado, e voltam para o lugar de onde saíram. Com esses, não adianta tentar entabular conversa. Eles escondem o jogo, não revelam nenhum segredo. Daí, o melhor a fazer é não insistir, para não causar atrito desnecessário.    &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Durante muito tempo eu tive enorme dificuldade de abandonar um livro depois de começar a leitura. Bastava percorrer a primeira linha, pronto, não desistia da história enquanto não chegasse ao último parágrafo. Por conta disso, já me arrastei por páginas e páginas sem nenhum entusiasmo. É uma sensação parecida com aquela de estar ao lado de uma pessoa estranha que gosta de ser sociável. O interlocutor faz um comentário banal, nos sentimos na obrigação de retribuir gentileza, respondemos algo do mesmo gênero. Não significa que essa pessoa seja estúpida, ignorante ou coisa assim. Pode muito bem ser uma criatura de imensa sensibilidade e arguta inteligência. Só que não estamos na mesma sintonia. E a comunicação não deslancha.  &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Na minha opinião, esses livros enigmáticos são assim. Não significa que sejam ruins, mal escritos, ou vazios. Apenas bateram em minha porta no momento em que eu não tenho como entender os sinais que me dão. E um grande aprendizado que adquiri com o tempo é perceber quando um livro, ou uma pessoa, não vai me dizer nada importante. Numa situação dessas, a gente se vale da liberdade de escolha: continuar o palavreado displicente, sem criar grandes expectativas para não acumular desilusões; ou apelar para a imaginação e inventar um pretexto educado para pôr ponto final ao bate-papo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;No caso dos livros, já não me sinto culpado por pedir que voltem para a prateleira. Com alguns deles creio inclusive que foi melhor assim. O primeiro foi &lt;strong&gt;Jangada de Pedra&lt;/strong&gt;. Não consegui fazer parte daquela embarcação que flutuava por oceanos já várias vezes navegados. &lt;strong&gt;O Passado&lt;/strong&gt;, de Alan Pauls, também não me trouxe nenhum alento ao presente e nenhuma esperança para o futuro. Resultado: decidi contemporizar e dar um tempo. Depois, apaguei as &lt;strong&gt;Memórias de Adriano&lt;/strong&gt;, de Marguerite Yourcenar. Não me convenci da honestidade de tantas reminiscências.  Talvez pela seriedade da fala, a sutileza das idéias, o lirismo de algumas imagens. Mas o mais provável é que a minha atenção tenha se voltado para o espírito galhofeiro, irônico e debochado de &lt;strong&gt;Gargântua e Pantagruel&lt;/strong&gt;, de Rabelais. Esse sim, chegou sorrateiro, destronou o poderoso imperador, e se instalou na cabeceira da minha cama. E todas as noites, antes que eu pegue no sono, ele me atiça a curiosidade com uma anedota sobre algum monge pervertido, ou as fanfarronadas de algum poderoso medieval. E não é por acaso, pois o meu atual estado de espírito se identifica mais com a ironia escrachada que com as retóricas sentimentalistas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Esta semana, quando procurava uma idéia para fechar estas divagações, entrei numa livraria, e um livro novo saltou no balcão da entrada, e as letras amarelas da capa começaram a dançar na minha frente. Fui conferir, e o que encontrei não podia ser mais adequado: &lt;strong&gt;Não contem com o fim do livro&lt;/strong&gt;, de Umberto Eco e Jean-Claude Carrière. Levei pra casa e pedi que esperasse eu terminar este texto. Já vou ver o que ele quer me contar. Mas, olhando o índice já desconfio. Um dos capítulos se chama “&lt;em&gt;Livros que fazem de tudo para cair nas nossas mãos&lt;/em&gt;”. Quem sabe ele já me dê uma sugestão para a próxima crônica.  &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/750798236973800089-5641944079927159367?l=prosaredo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosaredo.blogspot.com/feeds/5641944079927159367/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=750798236973800089&amp;postID=5641944079927159367' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/5641944079927159367'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/5641944079927159367'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosaredo.blogspot.com/2010/07/os-mensageiros-secretos.html' title='os mensageiros secretos'/><author><name>Ademir Furtado</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12953829384435850908</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-v5Fh-h3qifE/TyqSJshfX4I/AAAAAAAAABU/Zx8z4MqJnlg/s220/ademir-01%255B1%255D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-750798236973800089.post-6007744437114659748</id><published>2010-05-27T17:00:00.000-07:00</published><updated>2010-05-27T17:04:01.441-07:00</updated><title type='text'>E Lula criou a mulher...</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;No começo era o caos. Os ventos uivavam sobre os morros e as florestas cobertos pelas trevas e cercados por abismos sociais. E assim foi até o final de dois mil e dois. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;E aí veio o ano da Graça de dois mil e três. No primeiro dia, Lula criou um plano de assistência aos necessitados e decretou que a fome no seu país deveria ser reduzida a zero. E viu que isso era bom, rendia votos, e deu ao plano o nome de Bolsa Família. E no segundo dia, bem como nos próximos, bolou mais uma infinidade de coisas, com o propósito de diminuir a miséria no Brasil e de aumentar a própria popularidade. E viu que tudo isso era muito bom, e não conseguiu mais descansar, nem no sétimo dia e nem nos setecentos que se seguiram.  &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E assim encheu as terras brasileiras com muitas coisas novas que, aos próprios olhos, lhe pareceram uma fase de inesgotável fartura. E o brasileiro não teve mais apenas frango sobre a mesa, mas três refeições inteiras por dia. O espírito do senhor presidente inspirava no coração de todos os viventes a certeza de uma era de bonança. E com tanta riqueza, o seu rebanho cresceu, abrigou gente de todas as raças e de todas as crenças, e todos se esforçavam para falar a mesma língua.  &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Lula então disse: “Façamos um sucessor à nossa imagem e semelhança, e que ele reine sobre todas as coisas que eu criei”. E com o mesmo discernimento com que obrou na construção do novo mundo escolheu entre os fiéis do seu séquito os responsáveis pela aração e cultivo da terra, e lhes disse: “Aquele que melhor honrar o cargo que ocupa será o escolhido para conduzir o meu povo ao reino da glória”. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Porém, os Nefilim, seres enormes que habitavam essa terra desde sempre, ficaram enciumados e disseram “Espalharemos a discórdia entre os brasileiros para que se tornem corruptos e ingovernáveis”. Por isso a serpente começou a sibilar no ouvido de cada um dos lavradores que eles podiam comer à vontade de todos os frutos da planície, sem se preocupar com a fome da população. Que o quintal era muito fecundo, e que eles podiam se fartar de tanto comer. Nesse dia, eles se uniram aos agitadores e se apropriaram das árvores mais frondosas e mais produtivas.  Entre os súditos de última hora, havia muitos obreiros debilitados, cuja fé era tão estéril quanto a semente no deserto. Ao ouvir sobre a nova situação, eles correram a ajudar os gigantes, e a cada mês recebiam sua cota na distribuição dos frutos. Mas eram tantos coletores subindo nos galhos que as árvores não resistiram e vieram a baixo, e todos caíram no precipício. Ao saber da notícia, Lula disse: “Eu não me responsabilizarei eternamente pelos atos dos meus apóstolos, pois eu viverei apenas oito anos e eles continuarão por aí”. E preferiu virar as costas e fechar os olhos ao acontecido, e se preocupar apenas com o futuro.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Porém, quando abriu os olhos, não havia mais à sua volta um único sectário que ele pudesse enviar à terra prometida. Mas não se arrependeu do que fez, apenas tramou um plano para conceber alguém a quem pudesse derramar sua bênção, e que não cedesse às tentações da serpente. E pensou que os homens que se deixaram desviar do bom caminho possuíam a carne bem nutrida, mas o espírito muito fraco; e que o porvir clamava por um ser com mais integridade, uma mão mais hábil para semear, e um coração mais generoso para acolher. E Lula criou a mulher que, em seu infalível entendimento, tem idoneidade suficiente para libertar o seu povo do cativeiro. E contemplando sua criação disse: “Esta sim, é osso dos meus ossos, é carne da minha carne”. E ensinou a ela os primeiros passos, como cultivar o solo, como pescar o peixe no rio. E para que o todo poderoso possa finalmente descansar, ou tentar uma vaga na ONU, ela aprendeu também a entoar os cantos de louvor às coisas nacionais, para incentivar o povo acompanhá-la nessa peregrinação em busca da felicidade suprema. Pelo menos até o próximo dilúvio.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/750798236973800089-6007744437114659748?l=prosaredo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosaredo.blogspot.com/feeds/6007744437114659748/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=750798236973800089&amp;postID=6007744437114659748' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/6007744437114659748'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/6007744437114659748'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosaredo.blogspot.com/2010/05/e-lula-criou-mulher.html' title='E Lula criou a mulher...'/><author><name>Ademir Furtado</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12953829384435850908</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-v5Fh-h3qifE/TyqSJshfX4I/AAAAAAAAABU/Zx8z4MqJnlg/s220/ademir-01%255B1%255D.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-750798236973800089.post-4196752887267353110</id><published>2010-02-03T15:30:00.000-08:00</published><updated>2010-02-03T15:38:53.767-08:00</updated><title type='text'>Um mundo de procuras e espantos</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Caio Fernando Abreu morreu há catorze anos, mas o interesse pela obra que ele produziu continua muito vivo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Em fevereiro de 1996, quando morreu, aos 48 anos de idade, Caio já tinha conquistado o reconhecimento do público e da crítica como autor de uma obra consagrada entre as principais realizações da Literatura brasileira das últimas décadas do século XX. Mas, em comparação a outros escritores, o que o torna uma figura singular entre os grandes nomes da Literatura nacional é o ponto de vista adotado para abordar as mazelas humanas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Caio nasceu no interior do Rio Grande do Sul, numa região fronteiriça. Transferiu-se para Porto Alegre ainda adolescente, nos anos sessenta, para continuar os estudos. Nessa época, o astro mais brilhante da literatura dos pampas era Érico Veríssimo, cuja obra mais importante tratava da formação histórica do estado gaúcho, na qual desfila uma constelação de heróis valentes e destemidos guerreiros, dispostos a dar a vida por uma causa nobre, qualquer uma, desde que pudessem demonstrar sua fibra de macho intrépido. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Caio não se interessou muito por heróis farrapos. A paisagem que se abria à sua frente não era a imensidão verde dos campos, vista de cima de um cavalo, onde cada gesto é uma demonstração de coragem e valentia. Ao contrário. No meio urbano da capital onde se instalou, a visão era a de um menino tímido que espreitava o mundo através de uma vidraça embaçada. E isso não por cegueira ou covardia. A realidade brasileira transformara-se violentamente quando o autor lançou seu primeiro livro, &lt;strong&gt;O Inventário do Irremediável&lt;/strong&gt;, no começo dos anos setenta. No plano político, a ditadura militar não permitia que se enxergasse além de campos verdejantes impregnados de ordem e progresso. No plano econômico, as terras produtivas se concentravam em latifúndios, expulsando pequenos proprietários, obrigando-os a buscar abrigo nas grandes cidades. O resultado foi um crescimento vertiginoso e desordenado das principais capitais brasileiras, onde uma chusma de retirantes se aglomera em busca de sobrevivência. São criaturas atordoadas por um violento choque de identidades, por não se sentirem incluídas no ambiente por onde perambulam. Essa multidão de deserdados vive intensamente a procura de um espaço protetor, mas vivencia apenas o espanto ao se deparar com uma realidade totalmente adversa. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Pois é essa condição existencial do homem urbano que interessa ao jovem Caio. E para traduzi-la em literatura ele não se orienta por escritores locais, tão ocupados com heróis farroupilhas e aventuras campeiras. Sua maior fonte de inspiração é Clarice Lispector, não só na abordagem dos temas, mas principalmente, na elaboração de uma linguagem mais adequada à representação de uma realidade caótica. No primeiro livro de Caio, já mencionado, é inegável a influência da escritora.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Um dos traços característicos dos anos setenta é a perda das ilusões com as utopias. Esse estado emocional se reflete na obra de Caio, onde os personagens estão constantemente à deriva, sem se ligarem a nada, e os sinais de uma identidade construída são muito frágeis. O mundo torna-se algo estranho, o sujeito não se identifica mais com a realidade exterior. Jogado no meio da massa humana o homem urbano das grandes metrópoles vive sob a experiência do anonimato. Essa condição, por outro lado, proporciona-lhe uma sensação de liberdade para descer ao ponto mais profundo de sua intimidade.   Esse mergulho se concretiza na busca de uma essência do humano, que no final das contas é a procura da verdadeira identidade, aquela que a pessoa assume ao despir as máscaras impostas pelo convívio social. Mas o conforto de um lugar seguro onde o vivente possa se abrigar parece nunca ser desfrutado em toda a obra do escritor. As expectativas de descanso são constantemente frustradas pela falta de concretude das coisas, como sintetiza o seguinte trecho de um conto, não por acaso intitulado “itinerário”, do livro &lt;strong&gt;O Inventário do Irremediável:&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;“&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;A segurança das coisas fáceis e simples desliza entre meus dedos recusando fixar-se. E há o cigarro: essa tonalidade azulada é apenas a fumaça subindo em lentas espirais, cada vez mais densa, tomando conta de mim, eu sei, deve ser, porque as coisas não sendo o que são outra vez me jogarão num mundo de procuras e espantos”.&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;Como se pode ver esse não é o espaço para heróis. Aqui não há lugar para atos de bravura e valentia, e a causa mais nobre é apenas manter-se num nível mínimo de sobrevivência, seja física ou existencial. Pois esses personagens não vivem mais numa integração ideal com a natureza, eles estão espremidos entre lajes de concreto; para eles, a vastidão do céu transformou-se em nesgas vislumbradas por frestas entre as paredes dos arranha-céus. São apenas número insignificante num espaço onde a arquitetura essencialmente funcional expulsou qualquer vestígio de humanidade. E onde tudo é calculado com base na objetividade e racionalidade. Nessas condições, a sensação de opressão e invasão é constante.  &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;No livro Pedras de Calcutá, lançado em 1977, essa experiência da invasão é mostrada em quase todos os contos. A partir de uma situação de equilíbrio, algo acontece instalando o caos na vida do personagem, que não consegue mais recuperar a posição original. No caso do conto “&lt;em&gt;Até oito, minha polpa macia&lt;/em&gt;”, uma mulher de 29 anos que “dedilha o tédio abaixo do umbigo”, vive um momento de descontrole produzido por um fluxo de consciência, que aparece como uma invasão, onde a linguagem explode em delírio, e as palavras, idéias, imagens vão surgindo como uma enxurrada. A personagem não tem nenhum domínio sobre seu próprio discurso, porque as imagens lhe assaltam a mente e se transformam em palavras que lhe saem pela boca, sem que ela própria entenda o que significam. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Por outro lado, no conto “&lt;em&gt;Sim, ele deve ter um ascendente em peixes&lt;/em&gt;” a situação é de total estranhamento.  Um homem volta à noite pra casa onde mora há 15 anos e não reconhece nem a casa nem a rua. A chave não serve na porta que ele tenta abrir inutilmente. Dirige-se a um homem negro que está sempre na parada do ônibus, mas recebe dele apenas respostas desconexas. O negro pergunta se ele quer alguma coisa e ele responde que não fuma. Mais adiante ele pergunta ao negro o nome da rua e recebe como resposta que o outro não tem fósforo. No mais das vezes a interação entre os dois é apenas por ações, e por pressupostos. Ele acha que o negro quer alguma coisa, assaltar, matar, e age como se já estivesse sendo assaltado. A ação termina com o estranho dizendo que não quer dinheiro, quer apenas prazer. É na experiência do prazer que a busca de identidade se intensifica. Diluído no meio da multidão, livre dos olhares dos outros, o indivíduo está livre para ir ao encontro do mais íntimo de si mesmo. E essa viagem interior é o tema básico dos contos de Caio. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ao distanciar-se dos temas e abordagens restritos da cultura gaúcha, e aproximar-se de uma das maiores escritoras brasileiras, Caio Fernando Abreu conquista uma posição indiscutível, pela qualidade e intensidade da obra, entre os melhores escritores da literatura nacional.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/750798236973800089-4196752887267353110?l=prosaredo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosaredo.blogspot.com/feeds/4196752887267353110/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=750798236973800089&amp;postID=4196752887267353110' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/4196752887267353110'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/4196752887267353110'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosaredo.blogspot.com/2010/02/um-mundo-de-procuras-e-espantos.html' title='Um mundo de procuras e espantos'/><author><name>Ademir Furtado</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12953829384435850908</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-v5Fh-h3qifE/TyqSJshfX4I/AAAAAAAAABU/Zx8z4MqJnlg/s220/ademir-01%255B1%255D.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-750798236973800089.post-4001830732645350042</id><published>2009-12-21T05:15:00.000-08:00</published><updated>2009-12-21T05:30:34.025-08:00</updated><title type='text'>Oficinas literárias</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A literatura já refletiu muito sobre si mesma, na tentativa de desvendar o seu próprio mistério: as motivações que levam algumas pessoas a se ocuparem por toda a vida a inventar histórias fictícias. Muitos livros já foram produzidos com esse tema, alguns de entrevistas, onde o entrevistador aborda um escritor com a pergunta fatal: por que a gente escreve? As respostas são tão diversas quanto os entrevistados que as proferiram, cada um baseado em sua experiência pessoal. Mas, de uns anos para cá, outra perspectiva vem se configurando entre os amantes da Literatura. Seja por desinteresse da questão original, ou apenas atração pelo exótico, o fato é que a curiosidade pelas motivações mais profundas dos escritores consagrados está se voltando para uma atitude de caráter mais prático, no sentido de querer saber &lt;em&gt;como&lt;/em&gt; a gente escreve.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt; Essa mudança de foco pode ser percebida pelo grande número de Oficinas Literárias que surgiram nos últimos anos. Cursos para formação de escritores não são uma novidade. Só em Porto Alegre, já existem há mais de duas décadas. O que parece inédito é o fascínio que a prática da escrita exerce sobre tantas pessoas. Assim, a questão assume outro nível de importância. Ou, melhor dizendo, outra interrogação surge: por que hoje em dia tanta gente quer ser escritor?&lt;br /&gt;Alguns aspectos da vida moderna podem ajudar a refletir sobre o tema. Vivemos a era do “faça-você-mesmo”. Ninguém mais se limita à simples contemplação de obras alheias. A ordem do dia é agir, tomar iniciativa, e dirigir o próprio destino. A internet contribui muito pra incentivar essa mentalidade, pois quem quer escrever pode criar uma página virtual e publicar o que bem entender sobre o assunto que lhe agrade. Após um período de exercício on-line, onde adquire um pouco de experiência com o texto, e conquista alguns leitores, o novo autor se lança finalmente para as páginas impressas em papel. Quem acompanha os eventos de publicação e sessões de autógrafos constata que o traço mais comum entre os novatos é a origem no espaço virtual. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Por outro lado, os custos do processo editorial diminuíram bastante em comparação com épocas anteriores. A produção de um livro, portanto, não é mais um investimento tão dispendioso como antigamente. Acrescente-se ainda, que, para algumas pessoas, ver o próprio nome estampado na capa de um livro numa estante de livraria é um acontecimento que vale qualquer esforço, até mesmo financeiro, pois a edição do primeiro livro é quase sempre financiada pelo próprio escritor. De qualquer maneira, com o surgimento das Oficinas Literárias, a Literatura deixa de ser uma prerrogativa de poucos, e se transforma em um ofício mais corriqueiro, acessível a espíritos menos pretensiosos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Esse é outro aspecto muito importante. Percebe-se, entre os participantes de Oficina, que muitos deles não têm a pretensão de virar celebridade das Letras, não sonham com o seu nome esculpido nos pilares da posteridade. E não há como ser diferente. Ninguém se transformará em escritor apenas por frequentar aulas para formar escritores. Não se está aqui defendendo nenhuma tese romântica de genialidade natural. Mas, é bom ter em mente que a criação literária, como um processo de representação da vida, é um trabalho muito mais amplo e complexo do que enfileirar uma seqüência de frases numa folha de papel. Exige não apenas conhecimentos sólidos de técnicas de composição de texto, mas, principalmente, muita argúcia para entender o mundo, e muita perspicácia na observação da realidade em todas as suas sutilezas. Uma pessoa que não consegue enxergar além dos clichês moralistas do senso comum, ou que tenha uma compreensão simplória da vida, jamais conseguirá compor uma obra que mereça o nome de literatura. E essa aptidão nenhum professor, por mais honesto e competente que seja, ou instituição de ensino, por mais bem equipada, será capaz de fornecer ao estudante que não possuir previamente uma formação intelectual adequada. Mas, esse aspecto não diminui em nada os méritos de uma instituição cultural que se instalou em nosso meio com pretensões de permanência. O resultado garantido para todos os alunos é o melhor desempenho como leitor e, em conseqüência, maior habilidade na elaboração de um texto, e com isso, mais eficiência na divulgação das idéias. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Talvez esteja nesse ponto a resposta mais provável para aquela pergunta lá do começo, ou seja, por que tanta gente hoje quer ser escritor?  É provável que o narcisismo atual tenha desenvolvido uma supervalorização da experiência pessoal. Com isso, muita gente que antes ficaria calada, ou apenas dialogando com seus escritores preferidos através dos livros, se sentiu autorizada a publicar seus próprios devaneios, e com eles marcar suas presença no mundo. Então, mais do que ser um escritor famoso, se tornar um imortal, ganhar o Nobel, a intenção é aprender a lidar com um recurso poderoso de expressão e com ele traçar algumas linhas de direção. A criação literária é um instrumento de percepção e compreensão do mundo. Escrever é uma maneira bastante eficaz de organizar o pensamento. Escrever bem é pensar bem. No ato da criação o criador se depara com a necessidade constante de reorganizar toda sua experiência de vida. O escritor cria um personagem, e para dar-lhe uma existência verossímil precisa buscar na própria bagagem existencial a história que vai desenvolver na sua obra. É nesse momento, então, que o ato de escrever se torna uma realização transcendental. Entender a si próprio é o primeiro passo para o indivíduo saber qual é o seu lugar no mundo. E depois de se localizar é mais fácil saber para onde quer ir. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/750798236973800089-4001830732645350042?l=prosaredo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosaredo.blogspot.com/feeds/4001830732645350042/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=750798236973800089&amp;postID=4001830732645350042' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/4001830732645350042'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/4001830732645350042'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosaredo.blogspot.com/2009/12/oficinas-literarias.html' title='Oficinas literárias'/><author><name>Ademir Furtado</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12953829384435850908</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-v5Fh-h3qifE/TyqSJshfX4I/AAAAAAAAABU/Zx8z4MqJnlg/s220/ademir-01%255B1%255D.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-750798236973800089.post-6823724686928062088</id><published>2009-08-28T05:29:00.000-07:00</published><updated>2009-08-28T05:32:34.767-07:00</updated><title type='text'>A era do spam</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;No cruzamento da Borges de Medeiros com a Rua da Praia, em Porto Alegre, um homem enfiado numa roupa escura, com uma Bíblia na mão, proclama, veemente, o fim dos tempos, e a necessidade de remição de todos os pecadores.  Os passantes, no entanto, prosseguem seus rumos, impassíveis frente à iminência apocalíptica. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Rivalizando com o pregador, um menino entrega prospectos anunciando empréstimo fácil, sem comprovação de renda, com juros baixos. Num espaço limitado pela torrente de pedestres aglomera-se uma turma de oferentes com notícias de boas novas, uma solução para algum problema. Uma mulher veste um cartaz indicando a compra de ouro; o cego com bilhetes da Mega Sena já prontos. É uma lista interminável de dádivas tentadoras, ofertas imperdíveis. Esses arautos da sorte cumprem como autômatos uma tarefa, indiferentes à indiferença dos outros. Não se preocupam muito que suas palavras ou folhetos sejam levados pelo vento, ou jogados na lixeira logo adiante. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A esquina é democrática, aceita, resignada, variadas manifestações e promessas de salvação, seja do espírito, ou da conta bancária.  Mas também permite que se passe insensível a tudo isso. Então, um fenômeno torna-se evidente: há um excesso de mensagens no ar e uma carência gritante de respostas. É provável que aqueles transeuntes da Rua da Praia tenham outros motivos de pressa, outros valores a serem resguardados, e por isso não se deixam cair nas tentações da esquina. Sim, eles também estão correndo em direção a um público, a quem vão fazer um comunicado surpreendente. Não importa que suas vozes também se percam na balbúrdia. Palavras berradas ao vento, em lugares públicos, no meio da multidão, hão de atingir ouvidos dispersos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Os personagens da esquina ainda praticam a técnica rudimentar, quase abandonada hoje em dia, de enfrentar pessoalmente seus alvos, talvez pela convicção de que o benefício que trazem é vital.  Mas a necessidade mais premente do homem atual é a de mandar seu recado. E a tecnologia, que não é mais do que o resultado das ansiedades do homem, evoluiu bastante para simplificar a vida e evitar esforços dispensáveis. Basta ter em casa um computador com acesso à internet para se economizar tempo e as cordas vocais, emitindo mensagens aos milhares, entupindo as caixas de entradas de correios eletrônicos, mundo afora.  E ainda se poupa do cansaço que o contato pessoal eventualmente exige. Desnecessário empenhar-se no sucesso das mensagens enviadas.  Sempre haverá um receptor ocioso. Resposta? Não carece. O importante é projetar-se, fazer barulho, registrar uma existência, ainda que ínfima. A conquista de um espaço no mundo passa pela manifestação de algo original, mesmo que a originalidade tenha virado uma obsessão coletiva, e se tornado algo corriqueiro. E mesmo que a excentricidade não chame mais a atenção de ninguém, afinal de contas, os outros também estão ocupados com sua própria singularidade. As conquistas na área de valores sociais proporcionaram a cada cidadão o direito de falar o que bem entende, mas também o de ouvir apenas o que interessa. Os canais de emissão se multiplicam, mas os de recepção estão bloqueados. Ou, no máximo, permitem comentários com moderação. O spam é o modelo da comunicação na sociedade atual. E o que mais caracteriza os encontros humanos é essa gritaria sem fim nas esquinas democráticas,&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/750798236973800089-6823724686928062088?l=prosaredo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosaredo.blogspot.com/feeds/6823724686928062088/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=750798236973800089&amp;postID=6823724686928062088' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/6823724686928062088'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/6823724686928062088'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosaredo.blogspot.com/2009/08/era-do-spam.html' title='A era do spam'/><author><name>Ademir Furtado</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12953829384435850908</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-v5Fh-h3qifE/TyqSJshfX4I/AAAAAAAAABU/Zx8z4MqJnlg/s220/ademir-01%255B1%255D.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-750798236973800089.post-5626209418214004128</id><published>2009-07-09T04:47:00.000-07:00</published><updated>2009-07-09T04:53:19.609-07:00</updated><title type='text'>Pérfida Porfia</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Fevereiro passou. Carnaval acabou. No chuveiro da alegria já não dá pra se banhar. Que azar! E as águas de março, no final da estação, inundaram o Brasil como muita podridão. Não é só queda de avião! Já nem tem graça falar de Mensalão. Mas é essa a nossa sina, viver atolado na propina. Não basta a gripe suína, que chega da Argentina? E ainda com rima! Já sofremos com a falta de ética, a cafonice da estética e a pobreza poética. Pra rimar com coração logo vem uma emoção. No calor da fantasia o que explode é alegria. Criatividade, inteligência, por aqui a gente não vê. E o nosso maior produto cultural é a novela da tevê. Falsificação daqui mesmo sai, não precisa importar do Paraguai. Pois já temos um negócio da China, uma Índia de plástico, o sucesso é Fantástico. E o povo se quedou paralisado, aplaude com vigor, bestificado, esquece até as contas do Senado. Difícil listar as falcatruas. São tantas! E com certeza um dia vão soltar o Dantas. Os outros escândalos são bobagens depois da farra das passagens. Aqui, grupo social é quadrilha, e o fantasma do oportunismo paira sobre Brasília. Será um pássaro? Será o Super-Homem? Não. É um avião com um deputado, trazendo amigos e família. Ò Pátria amada, idiotizada, ninguém mais te salva. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Mas, ó, tu, alma descrente. Coração intransigente. Abre a cortina desse olhar esfumaçado. Verás que aqui vive uma nobre raça, que não foge à luta e não tem medo de fumaça.  O Brasil é o reino da folia, tem festa todo o dia. Quanto riso, ó, quanta orgia! Não leve a mal, este é um país tropical, um povo cordial, que tem o vício da amizade. Do amigo secreto, dos atos secretos. Toda a corte é perfumada, a sujeira é disfarçada. Não seja um babaquara, nosso líder é o cara. Não temos nada a temer, venha o que vier. E o próximo presidente será uma mulher. Pois no ano que vem já teremos eleição. E lá na África, com garra e dedicação, o escrete brasileiro novamente campeão. A língua do Brasil é a única que tem til, o que nos dá uma grande distinção, por isso, aqui tudo é emoção. Este é um país que vai pra frente, com os olhos no futuro, um povo heróico, um brado retumbante. Se não o ama, deixe-o. Vá embora pra Passárgada. Mas sempre é bom avisar, que se é para viver, do que aqui lugar melhor não há. Nesta terra tem palmeiras, é só plantar que tudo dá. E quem quiser ser um milionário, maximizar economias, não há que labutar todos os dias. Que mania! Basta sofrer de acefalia, e se enclausurar como um senil, na casa mais vigiada do Brasil.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/750798236973800089-5626209418214004128?l=prosaredo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosaredo.blogspot.com/feeds/5626209418214004128/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=750798236973800089&amp;postID=5626209418214004128' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/5626209418214004128'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/5626209418214004128'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosaredo.blogspot.com/2009/07/perfida-porfia.html' title='Pérfida Porfia'/><author><name>Ademir Furtado</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12953829384435850908</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-v5Fh-h3qifE/TyqSJshfX4I/AAAAAAAAABU/Zx8z4MqJnlg/s220/ademir-01%255B1%255D.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-750798236973800089.post-7005506015436491972</id><published>2009-04-22T08:42:00.000-07:00</published><updated>2009-04-22T08:54:34.321-07:00</updated><title type='text'>A Companheira Constante</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;É inútil tentar fugir. Pra quem se aventura pelas vias públicas ela pode espreitar na esquina, no cano do revólver de um marginal; ao atravessar a rua, é possível que ela se precipite na pessoa de um motorista estressado; ou avance sobre a calçada no rastro de um automóvel sem controle. Para quem fica em casa, ela ainda irrompe através de ondas eletromagnéticas, pela televisão, pelo rádio. Ela, a violência, tornou-se uma entidade, e vigia cada minuto da vida de um brasileiro. Já é comum se denominar “A Violência”, como um ser quase abstrato, com existência própria, esquecendo-se, assim, que ela é apenas um estado de coisas, conseqüência da ação de alguém.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Hoje em dia, é natural que os temores e revoltas da população urbana estejam focados na truculência dos assaltos, e na brutalidade dos bandidos, eleitos, por isso, os principais agentes da violência. Não há como negar a validade desse enfoque. Ele sofre, contudo, de uma limitação muito suspeita, pois se tornou o único ponto de vista de um discurso moralista da mídia e de políticos, com vistas, talvez, a esconder uma realidade mais escandalosa, mas bem menos aceitável: a evidência de que a sociedade brasileira, na sua essência, é extremamente violenta. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Entretanto, para continuar nesse raciocínio, é necessário um pouco de definição de conceitos. Violência é qualquer ação intencional, de caráter coercitivo, exercida por alguém sobre outro ser humano, em que haja uma força contra a qual o violentado não pode lutar. Há, portanto, uma noção de ato moralmente negativo, que inflige danos, físicos ou morais. Partindo-se do pressuposto de que todo o apelo a expedientes extremos é uma estratégia de resolver um conflito, tem-se que o agente opressor não reconhece no oprimido uma subjetividade legítima para competir com ele. Todo ato violento pressupõe a desumanização do elemento passivo, visto como um objeto, portanto, um obstáculo aos propósitos do sujeito ativo, e deve ser eliminado a qualquer custo, não importa sob quais meios. Ressalta-se ainda, que, nos limites desta abordagem, para que um embate seja caracterizado como violento não é necessário que haja agressão física. Basta que o agredido, ao se sentir prejudicado, física ou moralmente, se veja na incapacidade de reagir, em função da intensidade do poder do agressor.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Nesse sentido, não há diferença nenhuma entre o comportamento de um delinquente armado para usurpar um bem ao seu proprietário, e o de uma operadora de cartão de crédito que envia a um domicílio particular produtos não solicitados, seguidos, mais tarde, de uma fatura, e o consequente registro em cadastro de proteção ao crédito, em caso de inadimplência. Continuando na mesma linha de interpretação, a investida do marginal encontra mais uma semelhança na atitude de um governo que executa um confisco nas contas bancárias de uma população inteira, sob a alegação genérica de financiar o bem comum. A fúria impositiva se manifesta, ainda, nas inúmeras taxas que o cidadão é coagido a pagar, sem nenhuma chance de escapatória. Nesse último exemplo, a imposição se torna imune a pressões externas porque é precedida por uma lei que a torna implacável. Em todos esses casos o objetivo do agente é o mesmo: faturar o máximo que puder. E os espoliados se igualam todos na mesma obrigação de entregar, sem reagir, tudo o que lhes for agadanhado. O miserável de rua recorre ao assalto, em princípio, por ser uma alternativa ao seu alcance de atender aos apelos consumistas de uma sociedade que só valoriza o individuo enquanto consumidor em potencial. O Estado brasileiro, na sua atual condição de mero coletor de Impostos, pratica uma arrecadação excessiva para sustentar os instrumentos de manutenção do poder, cada vez mais sofisticados e dispendiosos. É evidente que a miséria de um não justifica nem ameniza a ganância do outro. O que se faz necessário é entender o recurso da violência como elemento estrutural de uma sociedade cujos membros não praticam o hábito de ouvir as razões de seu adversário. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Analisando o assunto por outro ângulo, há que se fazer uma distinção entre a violência, enquanto ato concreto de um agressor sobre uma vítima, e o espetáculo da violência patrocinado pela mídia. No caso de notícias veiculadas pela televisão, de atos de decadência da civilidade em espaços coletivos, o conhecimento do telespectador é direcionado, pois a percepção é distorcida pela seleção de informações que satisfazem aos interesses do órgão transmissor. Assim, o enunciado que chega ao receptor não é a narração do ocorrido, mas a interpretação de determinado veículo. A experiência que o indivíduo adquire sobre o evento é controlada pelo acréscimo ou omissão de dados importantes acerca de determinados aspectos da notícia. A mídia precisa do sensacional para sobreviver e se vale da extrapolação dos fatos para prender a atenção do público. Pessoas cujas expectativas existenciais se limitam a uma sobrevivência cotidiana se dedicam muito pouco a exercer sua capacidade crítica. Seu imaginário se satisfaz com os pequenos dramas românticos das telenovelas, e fofocas sobre intimidades dos participantes de reality shows. Essas pessoas, não por acaso a maioria da audiência televisiva, se deixa facilmente influenciar pelo espetáculo feito pela mídia, na apresentação distorcida do caos urbano das grandes cidades. Dessa maneira, a experiência indireta recebida através da mídia se torna muito mais forte do que a referência concreta do real. O resultado é um estado de insegurança e pânico que se espalhou pelos grandes centros urbanos. Na verdade, a mídia promove esse estado de insegurança, tendo como base uma constatação muito simples: a pessoa insegura é mais facilmente manipulada. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;De tudo isso, conclui-se que o conceito de violência carrega um valor subjetivo muito forte, associado à noção de ordem. Uma atitude adquire caráter violento no instante em que é definida como tal. Essa definição, portanto, está relacionada com a idéia de normalidade vigente no meio social. Mas ela demonstra também a posição ideológica do discurso que a elabora. Numa sociedade como a brasileira, onde tantos grupos, com tantas concepções de mundo diferentes, disputam a hegemonia ideológica num nível de competição selvagem, tentando impor sistemas de valores, é natural que haja dificuldade na solução pacífica de conflitos. E é compreensível, também, - mas nem por isso mais aceitável – que o grupo detentor dos mecanismos de controle e manipulação dos valores referenciais tente atribuir a si mesmo o papel de defensor da ordem, e aos outros grupos, a acusação de desordeiros, e justificar, com isso, o emprego da violência para a manutenção de seu status. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/750798236973800089-7005506015436491972?l=prosaredo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosaredo.blogspot.com/feeds/7005506015436491972/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=750798236973800089&amp;postID=7005506015436491972' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/7005506015436491972'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/7005506015436491972'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosaredo.blogspot.com/2009/04/companheira-constante_22.html' title='A Companheira Constante'/><author><name>Ademir Furtado</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12953829384435850908</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-v5Fh-h3qifE/TyqSJshfX4I/AAAAAAAAABU/Zx8z4MqJnlg/s220/ademir-01%255B1%255D.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-750798236973800089.post-2775965972539212621</id><published>2009-03-14T06:52:00.000-07:00</published><updated>2009-03-14T06:56:15.310-07:00</updated><title type='text'>É show de bola</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Não, este texto não é sobre o desempenho da Seleção Brasileira de Futebol. Aliás, nem é sobre futebol. O lance aqui é outro. Trata-se de uma mania adquirida pelo povo brasileiro de recorrer ao linguajar futebolístico para expressar opiniões e sentimentos.&lt;br /&gt;Muita gente já deve ter notado que a bola invadiu o campo lingüístico dos brasileiros e jogou pra escanteio as sutilezas retóricas que enfatizam impressões subjetivas mais refinadas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Estas simples conjecturas, ora delineadas, não nutrem a pretensão de fazer um gol de placa num tema tão embolado, muito menos apitar alguma coisa em termos do esporte mais adorado nesta nossa terra. Mas, não é necessário ser um grande craque nas divagações intelectuais para perceber um fato interessante. O futebol, uma das muitas paixões deste povo tão perdidamente apaixonado, nunca influenciou, ao que parece, o comportamento do brasileiro, no que diz respeito à organização de sua vida prática. Não se inclui neste comentário, evidentemente, os dias de jogo do time preferido, nem os da Seleção Brasileira na Copa do Mundo, pois aí, estamos num intervalo da vida real. Por isso, a evidência de que a linguagem cotidiana do brasileiro se apropriou do palavreado corrente nos estádios é um assunto que merece algumas anotações. &lt;br /&gt;O motivo inicial destes questionamentos é essa onipresente sentença “é show de bola...” Pois no Brasil, atualmente, ninguém mais se preocupa em elaborar um parecer mais preciso sobre alguma coisa. Pergunte-se a um brasileiro o que ele achou de um evento, um espetáculo, um programa. Se a impressão é positiva, ele lança logo: show de bola. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;É claro que a tendência à simplificação do discurso não é nenhuma novidade. Há muito tempo que o pessoal pisa na bola em assuntos lingüísticos, e na hora de transmitir alguma idéia ou sentimento chuta pra qualquer lado, sem mirar a área. Gíria sempre existiu. São hábitos da fala que servem para facilitar o intercâmbio nos momentos em que não há muito a dizer, e qualquer grunhido satisfaz as necessidades de contato. O que parece uma coisa nova é o uso indiscriminado de um enunciado tão vazio quanto popular. E mais ainda, o emprego dessa fórmula em quase todos os campos, por quase todas as camadas sociais. E isso, justamente, numa época em que as celebridades da bola, que davam espetáculos fenomenais nos gramados, entraram em decadência, e correm a exibir suas barrigas nada elegantes em praias badaladas, mundo afora.  &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Uma hipótese possível para entender esse placar medíocre nos embates retóricos é a proporção direta entre a fluência verbal e a intensidade da práxis dos viventes. Hoje em dia, em termos de autenticidade de experiências individuais, parece que todo mundo joga no mesmo time. E aquele drible genial de antigamente, que deixava o adversário catando grama, transformou-se numa mera repetição de lances previsíveis, como um videoteipe revisto infinitamente. É que os fatos concretos, que preenchem a vida de uma pessoa, perderam o caráter de ocorrência significativa. O excesso de informações a que o Homem moderno está exposto dispensa qualquer tentativa de percepção individual das contingências existenciais. A perspicácia e a intuição foram substituídas pelo acúmulo de dados acerca das vicissitudes da vida. Não há mais a necessidade de compreensão de casos particulares. O indivíduo apenas se deixa levar pelos eventos sem precisar contextualizá-los em sua trajetória. O resultado disso é o empobrecimento da capacidade de se encantar com alguma coisa. A experiência individual, fruto de uma relação mais subjetiva com a própria história, está lesionada no banco de reservas. Quando alguém é convocado a se manifestar sobre algo que aconteceu, nada mais natural do que recorrer a um discurso pronto, que tenha o mesmo valor impessoal do acontecimento.  &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Antes de tirar o time de campo, seria necessário dar mais um palpite. A pobreza de frases do tipo “é show de bola”, bem como a planificação de vivências pessoais que elas traduzem, é mais um produto da tal mentalidade globalizada. E “globalizada”, aqui, tem o sentido de planetário, e não de novelas da Globo, ou BBB’s, se bem que essa conotação também seria possível. Comunicação pessoal, de tom mais intimista, virou caipirice. Moderno é falar coisas que o mundo inteiro entenda, mesmo que para isso fique-se a repetir o que já foi dito tantas vezes.  O curioso é que essa frase, na sua forma, milhões de vezes repetida, diz exatamente o contrário do que seu conteúdo poderia indicar. Um show de bola, antigamente, no mundo dos esportes, era um espetáculo glorioso, cheio de lances criativos e originais. E isso não existe mais na capacidade retórica de nossa gente. E por enquanto, nem na Seleção Brasileira.&lt;br /&gt;                                   &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/750798236973800089-2775965972539212621?l=prosaredo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosaredo.blogspot.com/feeds/2775965972539212621/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=750798236973800089&amp;postID=2775965972539212621' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/2775965972539212621'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/2775965972539212621'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosaredo.blogspot.com/2009/03/e-show-de-bola.html' title='É show de bola'/><author><name>Ademir Furtado</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12953829384435850908</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-v5Fh-h3qifE/TyqSJshfX4I/AAAAAAAAABU/Zx8z4MqJnlg/s220/ademir-01%255B1%255D.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-750798236973800089.post-3067036251145669407</id><published>2009-01-24T03:11:00.000-08:00</published><updated>2009-01-24T03:22:53.388-08:00</updated><title type='text'>Espelho Fatídico</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Na última postagem deste blog o tema era educação infantil. Ou melhor, uma estratégia fácil, traçada por alguns educadores, com o intuito de preparar as nossas criancinhas para a vida adulta. Seria injusto, por outro lado, ignorar alguns projetos altruístas, desenvolvidos por gente bem intencionada, visando o bem estar dos beneficiários do estatuto do idoso. É claro que, como no caso dos infantes, essa disposição se limita igualmente a enfeites retóricos no lugar de ações objetivas. Mas afinal, por que se cansar com tarefas estressantes e complicadas, se, para mudar o mundo, basta modificar o discurso sobre ele? Criar palavras ou expressões novas para renomear realidades antigas é muito mais fácil do que transformar essas mesmas realidades. Portanto, para garantir a qualidade de vida de quem já ultrapassou a casa dos sessenta anos, é mais simples estabelecer um novo estatuto retórico para a velhice do que incentivar políticas públicas para o reaproveitamento, pela sociedade, daqueles que conquistaram a aposentadoria. Foi assim que surgiu essa incrível “&lt;em&gt;melhor idade&lt;/em&gt;”. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Há grandes suspeitas e fortes indícios de que esse vanilóquio adulatório foi inventado por agências de viagens, quando começaram a desenvolver programas de turismo para as idades mais avançadas. Até algumas décadas atrás, passeio era coisa pra gente jovem, e as empresas especializadas em festas e diversão ignoravam que alguém com mais de vinte e cinco anos também gostasse de se divertir. Um dia, porém, descobriram que gente aposentada não serve só pra cuidar dos netos, e pode, inclusive, sair a correr pelo mundo, em busca do tempo perdido. Então, surgiram os pacotes de viagens visando atrair essa faixa etária. E, como estratégia de sedução, a convencer os velhinhos de que eles vivem no melhor dos mundos, os agentes de turismo tramaram esse engodo verbal, para persuadir suas vítimas de que, agora sim, elas desfrutam plenamente suas potencialidades, e precisam aproveitar ao máximo a energia que ainda sobra.  &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;É de se ressaltar que, na essência, essas idéias de entretenimento são até louváveis, e que não existe nada contra aos anciões gastarem o tempo e a pensão de aposentadoria em excursões de lazer. Muito mais saudável, aliás, do que serem roubados em Bingos, ou ficarem em casa, se entupindo de lixo televisivo o dia inteiro. Porém, dizer que alguém aos setenta anos está na sua “melhor idade” é ignorar os limites que a passagem do tempo impõe. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Essa retórica esconde, ainda, uma aversão à velhice. Numa sociedade obcecada pela juventude, empenhada numa busca frenética pelo corpo eternamente sadio e vigoroso, uma pessoa velha provoca uma emoção perversa de repulsa. Ela funciona como um espelho fatídico, a vaticinar um futuro incondicional. A solução, então, é cobrir os cabelos brancos das pessoas com palavras coloridas, e esconder os efeitos do tempo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Formulações desse tipo demonstram, ainda, uma concepção simplista da condição humana. A melhor idade de uma pessoa é a que ela está vivendo no momento presente, seja aos setenta, aos quarenta, ou aos vinte. Pretender que, ao longo de um trajeto existencial, existe um período melhor que outro, é esquematizar uma vida com base em referenciais exteriores a ela. E é de outro modo, uma forma de ignorar que cada etapa de uma existência tem seus encantos próprios, suas dores e alegrias. É até mesmo uma tentativa de negação de uma evidência. Esconde-se com uma retórica vazia aquilo que não se pode expulsar nem evitar. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Como todo o discurso politicamente correto, o resultado é sempre o contrário do pretendido. A tentativa desajeitada de afago acaba revelando a verdadeira intenção: o preconceito e o desejo de exclusão.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/750798236973800089-3067036251145669407?l=prosaredo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosaredo.blogspot.com/feeds/3067036251145669407/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=750798236973800089&amp;postID=3067036251145669407' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/3067036251145669407'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/3067036251145669407'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosaredo.blogspot.com/2009/01/espelho-fatdico.html' title='Espelho Fatídico'/><author><name>Ademir Furtado</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12953829384435850908</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-v5Fh-h3qifE/TyqSJshfX4I/AAAAAAAAABU/Zx8z4MqJnlg/s220/ademir-01%255B1%255D.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-750798236973800089.post-1265017886964550691</id><published>2008-11-25T03:12:00.000-08:00</published><updated>2008-11-25T03:22:56.272-08:00</updated><title type='text'>Infanticídio</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Era uma vez um menino que brincava no pátio de uma casa muito grande, onde havia umas árvores enormes; pássaros que voavam e cantavam o dia inteiro; e muitos bichos de estimação. Numa das brincadeiras, o guri atirou o pau no gato que dormia estirado ao sol. O bichano deu um pulo e um berro, e saiu correndo assustado. Dona Chica, a babá que espiava o garoto pela janela, ficou muito admirada com o berro que o gato deu.  Mas não gostou da traquinagem, por isso chamou o boi da cara preta pra pegar o malvadinho. Mas o pirralho já se sentia um homenzinho e não tinha medo de careta, disse um verso bem feio, disse tchau e foi-se embora, brincar noutro lugar. Pulou uma cerca de arame e entrou num lindo pomar, onde tinha muitas frutas. Ele ficou muito feliz e pulava de alegria ao ver tanta laranja madura, tanto limão pelo chão. Comeu tanta fruta que ficou com um barrigão enorme. Teve que se deitar um pouco pra descansar. Atirado no chão, com aquela barriga grande, parecia um sapo. Então ele decidiu ir brincar numa lagoa que havia ali perto, porque lá morava um sapo de verdade. Numa das margens tinha uma canoa, onde o moleque resolveu entrar. Mas ele tinha comido muita fruta, estava muito gordo e a canoa virou, e tornou a virar, por causa do gordinho que não pode remar. Enquanto ele gritava por socorro, pensava assim: “se eu fosse um peixinho, e soubesse nadar, eu saía dessa água e ia brincar noutro lugar”. Foi então que apareceu novamente a dona Chica, que entrou na lagoa, pegou o pestinha pelo fundilho das calças e tirou pra fora. O menino ficou ali jogado na grama, parecia um boneco de pano, todo encharcado. Não respirava, não se mexia. Dona Chica corria pra lá, corria pra cá, feito uma barata tonta, não sabia o que fazer. Mas o diabinho só era pequeno no tamanho, porque sabia fazer troça que nem gente grande, e caçoava de todo mundo como se fosse adulto. Pois era tudo burla do pequeno, que de repente deu um pulo, e saiu correndo, dando cambalhota, pulando num pé só, que nem um Saci Pererê, e cantando assim: “o sapo não lava o pé, não lava porque não qué”. Dona Chica, desta vez, não se admirou, pois já conhecia as fanfarronadas do pestinha. Ele foi se juntar às outras crianças que brincavam na rua, e foram todos cirandar.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;E assim muitos anos se passaram. Em qualquer lugar havia uma criança feliz, feliz a cantar, alegre a embalar seu sonho infantil.  Até que lá pelos anos de mil novecentos e setenta, no reino vizinho, onde o rei era muito poderoso, foi decretado que não basta às pessoas agirem corretamente, com honestidade, e só fazerem o bem para os outros. Elas tinham que ter o coração cheio de boas intenções. Não só o coração, mas a boca também. Quer dizer, elas deveriam falar sempre coisas bonitas, de maneira que não agredissem ninguém, nem mesmo os bichinhos que dormiam ao sol. Acreditando piamente que as coisas se transformam com um abracadabra, decidiram mudar o mundo usando uma estratégia bem simples e ao alcance do todos: mudar as palavras usadas para se falar sobre o mundo. E assim, com esse procedimento mágico, o admirável mundo novo se tornou possível. Basta dizer que a vida é bela, e pronto, fez-se a Beleza.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Passaram-se mais alguns anos, e num outro reino não muito distante, chamado Brasil, fez-se a anunciação da boa nova. E as pessoas deste país do futuro, crentes de que o que é bom para os do outro reino é melhor ainda para os brasileiros, trataram de pintar de cor-de-rosa o que antes era apenas verde-amarelo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;E na firme convicção de que o mal deve ser arrancado pela raiz, os brasileiros correram para as escolas a fim de plantar nos corações inocentes das crianças as sementes de um mundo perfeito. Era necessário ensinar aos anjinhos que Papai e Mamãe do Céu não gostam que uma criança ofenda os outros, maltrate a Natureza ou machuque os animais. Por isso, a primeira providência a ser tomada foi modificar as brincadeiras. Agora, uma criança não deve mais atirar o pau no gato, porque isso não se faz, o gatinho é nosso amigo, não devemos maltratar os animais. E nunca mais se brincou de cabra-cega, pois se há uma coisa muito terrível é alguém ficar zombando e maltratando uma pobre cabra portadora de deficiência visual. &lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;É claro que essa nova filosofia de vida trouxe coisas positivas. Por exemplo, o cravo não brigou mais com a rosa, nem debaixo de uma sacada e nem em lugar nenhum, por medo de parecer um machistinha intransigente. Ao contrário, provavelmente sob a influência de comédias românticas vindas do reino poderoso, ele viu o quanto estava sendo bobo em não querer dialogar com a coitada da rosa, que se espedaçava toda na tentativa de fazê-lo entender as coisas. E aqueles guerreiros que viviam em combate com outros guerreiros e faziam zig zig zá, agora estão celebrando um eterno acordo de paz, e comemorando o novo estado de espírito, de harmonia e entendimento. Seu inimigo comum agora são aquelas pessoas rabugentas, que cultivam o péssimo hábito de ter idéias diferentes das outras sobre questões relativas à maneira de se comportar em sociedade. E o primeiro empreendimento que realizaram juntos foi falar com Jó, para que ele libertasse seus pobres escravos e deixasse que fossem jogar caxangá onde bem entendessem, pois num mundo tão perfeito não há lugar para algo tão horrendo como a escravidão.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Por isso que hoje, em algumas escolas do reino dos brasileiros, os professores vivem tão felizes, pois seus pupilos, na hora do recreio, brincam todos em perfeita harmonia, sem ofender os portadores de excesso de peso, os descendentes de outras etnias, e principalmente, sem zombar daqueles meninos que, por alguma característica de personalidade ainda não identificada, se divertem mais com os brinquedos das meninas. &lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Com tudo isso, quem deve andar entediada é a dona Chica, coitada. Com umas crianças tão perfeitas, ela nem precisa mais se preocupar, não tem mais necessidade de correr atrás do pestinha do menino. Ela sabe que o bom Jesus, que junto com os poderosos do outro reino a todos conduz, está olhando as crianças do nosso Brasil. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/750798236973800089-1265017886964550691?l=prosaredo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosaredo.blogspot.com/feeds/1265017886964550691/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=750798236973800089&amp;postID=1265017886964550691' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/1265017886964550691'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/1265017886964550691'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosaredo.blogspot.com/2008/11/infanticdio.html' title='Infanticídio'/><author><name>Ademir Furtado</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12953829384435850908</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-v5Fh-h3qifE/TyqSJshfX4I/AAAAAAAAABU/Zx8z4MqJnlg/s220/ademir-01%255B1%255D.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-750798236973800089.post-3511393897906866900</id><published>2008-10-13T19:48:00.000-07:00</published><updated>2008-10-13T19:58:32.932-07:00</updated><title type='text'>A Cegueira de Cada Um</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Um filme não é um livro, isso todo mundo vê. Embora cada um disponha de linguagem própria, podem, ambos, apresentar a mesma narrativa, sem obscurecer os detalhes mais significativos. As diversidades nas formas de expressão tornam-se inevitáveis pelas diferenças de suporte, mas não precisam – e não devem – alterar substancialmente o conteúdo, quando o primeiro se apropria do segundo para recontar a mesma história. As variantes interpretativas, quando acontecem, são determinadas por fatores externos à obra, tais como posições ideológicas, ou necessidade de tornar o entendimento mais acessível, com vista a atingir um público maior. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O que se pretende neste espaço é passar em revista as duas versões de “&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Ensaio Sobre a cegueira&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;”, o texto escrito por José Saramago, e a leitura feita por Fernando Meireles, com o foco numa interpretação da cegueira, que parece ser o ponto mais importante da obra.&lt;br /&gt;Sem perder de vista outras interpretações possíveis, há que se definir um significado para a cegueira, tal como ela é apresentada nas duas obras. Mas antes, convém especular sobre a importância da visão, e sua relação com o ato de olhar.&lt;br /&gt;No &lt;em&gt;Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa&lt;/em&gt; encontra-se como uma das várias conotações do verbo OLHAR: &lt;em&gt;dirigir os olhos a alguém; exercer o sentido da visão; fitar os olhos em; prestar atenção. Fazer uso dos seus olhos; dirigir os olhos a.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;A palavra tem origem no latim &lt;em&gt;adoculare.&lt;/em&gt; &lt;em&gt;Ad &lt;/em&gt;= direção para algum lugar ou objeto. &lt;em&gt;Oculo&lt;/em&gt; = dar vistas a.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Todas essas acepções dão a idéia de que olhar é um gesto intencional, uma atividade do sujeito sobre alguém ou algo. A visão é o resultado dessa ação, e sua intensidade depende, em grande parte, da competência horática do agente. Para o ser humano, a visão é o sentido privilegiado no momento do indivíduo interagir com a realidade concreta, porque é no desenvolvimento dessa prática de interação que o mundo exterior é medido, avaliado, e conhecido. Sem essa avaliação não existe o conhecimento necessário para as operações abstratas do espírito, que produzem os valores simbólicos para a instituição da Cultura. Nesse contexto, a cegueira é um retrocesso ao mundo primitivo dos instintos. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Parece possível vislumbrar essa interpretação na obra de Saramago. Os habitantes de uma determinada cidade perdem repentinamente a visão, em conseqüência de uma inexplicável epidemia de cegueira, e, numa tentativa de controle da situação por parte das autoridades, são postos em quarentena num manicômio, onde vão protagonizar o espetáculo da degradação humana. Ali, tratados pelos vigias como animais encurralados, acabam-se as distinções geradas pela civilização: classe, posição social, formação, capacidade intelectual, tudo desaparece. Passam a ser apenas cegos.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A partir desse momento inicia-se a queda em direção ao estágio animalesco. As práticas de convivências sociais, as racionalizações, as disposições de entendimento e harmonia são paulatinamente abolidas, e a satisfação das necessidades orgânicas básicas, como a aquisição de comida e um lugar confortável para dormir, se tornam as únicas preocupações capazes de mover os catacegos de um ponto a outro. E, com isso, a luta pelo poder, a usurpação da autoridade, a imposição do mais forte. E o mais forte é o cego que tem uma arma de fogo, aliás, produto da sociedade civilizada, da evolução da ciência e da tecnologia. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quebrados também os tabus sociais, o sexo é outra necessidade orgânica satisfeita a qualquer momento, sem nenhuma noção de privacidade, e sem distinção de parceiro. Animada apenas pela compleição dos instintos básicos, a turba de cegos em que se tornaram aquelas pessoas, mergulha cada vez mais fundo nas trevas da selvageria. E mesmo que voltem a enxergar um dia, tudo o que foi construído antes está destruído. Talvez se possa entrever aí a necessidade de uma nova maneira de ver o mundo, e concluir que a construção da civilização mediada pela visão anterior está irremediavelmente perdida. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Até aqui o foco de atenção é a forma escrita. O passo seguinte é lançar um olhar sobre a tradução em imagens visuais, para divisar paralelos. Em primeiro lugar, é bom lembrar, apesar da obviedade, que um filme é produzido com milhões de dólares, e por isso precisa espelhar os anseios do grande público, e garantir o retorno do investimento. A adaptação cinematográfica da obra em questão certamente não fechou os olhos a essa regra básica do mercado. Por limitações de espaço e de competência analítica, esta síntese se restringe a observar comparativamente a maneira como a queda ao estado primitivo foi tratada nos dois casos. A primeira coisa a ser notada, é que o clima de selvageria existente na obra literária foi bem amenizado na releitura para o cinema, rebaixando a narrativa à categoria do filme-catástrofe, simulacro das tragédias coletivas, tão ao gosto das produções comerciais. Para confirmar essa hipótese, suficiente é acusar que uma das passagens mais significativas do livro foi deslocada na seqüência narrativa, e descontextualizada, perdendo todo o vigor. Trata-se de uma orgia. Quando os cegos malvados requisitam as mulheres para satisfazê-los nas suas necessidades libidinosas, espalha-se pelo manicômio um clima de extrema liberação dos instintos sexuais. A iminência de semelhante humilhação imposta pelos poderosos de outra ala desperta entre os quarentenários um estado incontrolável de alvoroço, em que todos se entregaram a todos, numa verdadeira apoteose do sexo. É nesse momento que a mulher do médico, a única pessoa a quem resta um pouco de orientação no meio do caos, encontra o marido na cama com a vizinha dos óculos escuros. Impotente diante da inutilidade de qualquer reação, ela se deixa ficar, a espiar o casal, num misto de piedade e repulsa.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;No filme, essa cena aparece totalmente fora do contexto original. O médico e esposa, antes do colapso da visão dele, formam um par harmonioso, mostrado no ambiente doméstico como um autêntico casal de classe média, bem sucedido, profissional e afetivamente. No recinto de quarentena, com mais característica de prisão do que de hospital, as tensões começam a se insinuar. Até aqui, percebe-se fidelidade ao original. Porém, o espectador das grandes produções cinematográficas não dedica grande interesse a questões de Antropologia Social, e um conflito conjugal rende muito mais bilheteria do que a bestialidade do Homem na sociedade contemporânea. Em conseqüência desse condicionamento, o marido da película começa, então, a se impacientar com o tratamento recebido da mulher, acusando-o de inadequado, mesmo atolados no lamaçal em que se encontram. Suas solicitações noturnas pela esposa não são mais correspondidas e ele passa a se sentir rejeitado. É nesse momento que aparece a inevitável terceira interessada, na pessoa da moça dos óculos escuros, prostituta jovem, que mesmo nos cegos desperta intenso apetite sexual.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Visto por esse ângulo, o ponto mais baixo da queda, mostrado na obra literária através dessa cena, adquire no suporte fílmico o aspecto de um mero desentendimento entre os cônjuges. E a impossibilidade do olhar recíproco, causada pela cegueira de um, e a quase desorientação de outro, torna-se uma questão de simples compreensão e de perdão.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O universo caliginoso em que os personagens de Saramago foram atirados pela privação da inteligência visionária aparece na adaptação de Meireles restrito ao espaço hospitalar, através da imagem mostrada pela fotografia escurecida. No plano dos significados, porém, a incapacidade de enxergar, é mostrada como um acidente, simplificando o tema, para ser melhor aceito pelo público.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Por último, resta mencionar que a deficiência visual sofrida pelos personagens não é causada por carência de luz, e sim pelo excesso. Percebe-se aí a metáfora de uma civilização deslumbrada pela intensa luminosidade que invadiu a vida cotidiana. O Homem contemporâneo enxerga demais, vive ofuscado pela luz da ciência, da Tecnologia, e da Informação. A tudo direciona sua lupa, ilumina todos os objetos do mundo real, misturando-os numa massa amorfa, sem identidade e sem cor. É a escuridão branca a que se refere um dos personagens do livro.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Sob esse ponto de vista, a dificuldade de enxergar é a tradução da impossibilidade de distinguir, ainda que por excesso de conhecimento. A mensagem, assim percebida, não deveria ser condicionada ao meio utilizado para transmiti-la. Seja a tinta escura impressa numa folha de papel, seja o foco de luz projetado numa tela de cinema. Só não vê quem não quer.&lt;br /&gt;Enfim, cada um com sua cegueira. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/750798236973800089-3511393897906866900?l=prosaredo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosaredo.blogspot.com/feeds/3511393897906866900/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=750798236973800089&amp;postID=3511393897906866900' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/3511393897906866900'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/3511393897906866900'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosaredo.blogspot.com/2008/10/cegueira-de-cada-um.html' title='A Cegueira de Cada Um'/><author><name>Ademir Furtado</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12953829384435850908</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-v5Fh-h3qifE/TyqSJshfX4I/AAAAAAAAABU/Zx8z4MqJnlg/s220/ademir-01%255B1%255D.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-750798236973800089.post-6008914452786328799</id><published>2008-09-16T04:52:00.000-07:00</published><updated>2008-09-16T04:55:14.079-07:00</updated><title type='text'>Falha Humana</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt; Pois então eu falo. Eu conto como foi. Foi eu e o Gabriel. O senhor tem que acreditar, foi sem querer. Eu não queria matar, era só pra assustar.   Mas aí saiu tudo errado. A gente pensa em fazer uma coisa, sai outra diferente. É assim. Ninguém tem culpa.  Mas o senhor quer saber? Ele merecia. O Luizão era mesmo um rato muito ordinário. Depois que aprendeu tudo comigo, achou que já era homem pra andar sozinho. Chegou pra mim era um moleque, eu criei, dei a formação que precisava. E agora, como é que ele me paga? Com traição. Ele tava se passando pra outro lado. Queria se livrar da parceria. Eu não dava um pio, só ruminava aqui comigo.  O senhor acha justo? Vou engordar cria alheia? Não senhor! Eu ensinei tudo pra ele.  No começo ele ia direitinho no cabresto. Eu controlava tudo, rédea na mão. Ele ainda engatinhava na malandragem eu já era macaco velho. No primeiro carro que ele levou eu fiquei junto, dei orientação. Agora eu ia deixar ele encher o peito na minha frente e dizer o que que é certo e o que que é errado?  Ele era o mais forte do grupo. E gostava muito de mandar. E eu remoendo muita raiva aqui dentro. Chamei o Gabriel, tinha que soltar a cachorrada em cima daquele rato bexiguento. Ele tinha uma casinha perto do mato, se entocava lá. Era um lugar calmo, ele farejava de longe quem chegava.  Eu fui numa noite escura, caminhei até perto da casa. Deitei no chão com a barriga pra baixo e fui me arrastando por cima da grama na beira da estrada. E o Gabriel fez que nem eu e seguia o meu rastro. Por isso o Luizão não viu nossa chegada. Aí a gente entrou, ele ficou meio nervoso. Andava de um lado pro outro. Ele ficava irritado com surpresa. Falava coisa que eu não entendia, eu disse, assim, tu gosta muito de mandar, seu babaca, a gente forma um grupo, mas não tem líder. Então ele ficou furioso, começou a dar ordem, que nem chefe. Ele queria era ser o chefe do grupo. Mas eu sou o mais velho, o mais experiente, e o mais raivoso.  Eu falei alto também e disse baixa a crista, eu não gosto que um pirralho mande em mim, e que não gostava que ele falasse como um chefe, e ele respondeu, mandar é coisa pra macho, não pra bunda mole. Eu fiquei louco de raiva e ele gritava e caminhou até o armário onde guardava uma arma e daí o Gabriel, que ficou por perto, pronto pra dar o bote, apagou ele. Deu um tiro bem no meio da cara do miserável.. E depois ele no chão, morto, eu chutei o que era a cara dele e disse aprende, tu não é mais homem que ninguém, E aí eu falei, vamos embora daqui e saltei pra rua, e o Gabriel parecia louco, e pulava na volta do corpo e gritava, e eu não entendia o que ele dizia, e descarregou o revólver no infeliz.. O Gabriel queria era matar o Luizão. Eu queria só assustar, ele tinha gana era de esfolar aquele cachorro vivo. E o senhor sabe por quê? Eu sei, ele disse pro senhor,  eu é que queria matar por causa de dinheiro. Foi um trabalho num banco e o Luizão dividiu a grana. Depois deu no jornal uma notícia, o dinheiro levado era muito mais que aquele que ele dividiu. A desconfiança por causa disso, o Luizão sacaneou. Mas eu não acreditei nessa lorota, não. O senhor sabe, o jornal aumenta, e o povo fica com raiva, bandido ganha dinheiro fácil, não se arrebenta no trabalho feito animal de carga, não agüenta desaforo. Eu confiava no Luizão. O Gabriel, não. Não confiava e não gostava. Ou gostava, não sei. Sei é que queria matar por causa do tempo da Febem. O senhor não sabia? Ele conheceu o Luizão lá, e o Luizão gostava de gurizinho e daí pegou o Gabriel pra ele. O senhor sabe como é que o Luizão chamava ele? Gabi. Isso mesmo, Gabi. E o Gabriel saiu da Febem e só pensava nele. Quer dizer, só pensava em matar ele.  A garota? Também foi sem querer. Terminou a briga, a gente foi lá pra casa, jantar. Aí o Gabriel contou, quando ele descarregava aquele monte de bala na carcaça do miserável, apareceu a guria e ele disse pra ela, fica bem quietinha senão vai acontecer o mesmo contigo, depois correu pra rua.  Então eu disse, mas essa idiota vai te reconhecer, amanhã tá todo mundo na nossa cola, e ele respondeu, não tem perigo, ela era uma transa nova do Luizão e nunca viu a gente.  Terminei a janta, falei pro Gabi, ela tem que sumir também. Encontrei ela deitada em cima do corpo, chorando, nem viu quando eu entrei. Eu fiz um barulho na porta, ela viu e começou a gritar que nem uma doida. Eu dizia fica quieta, tá tudo bem, eu só queria falar com ela, dizer pra sumir dali e nunca mais aparecer, ela não ouvia, e gritava mais ainda, e queria fugir, e corria pra lá e pra cá, e foi se esconder lá no quarto. Eu fui atrás e ela dizia demônio, vai pro inferno, e mais um monte de praga.  Aquilo me deixava louco, peguei pelo ombro e sacudi com força, ela pulou pra trás, caiu em cima da cama. Aí é que eu vi, a putinha era bem gostosinha e me deu uma baita duma tesão.  Saltei em cima dela, baixei a calça, ela pegou uma garrafa de cerveja vazia no chão e fez esse corte aqui na minha cara. E não parava de gritar. Trançou um pé no noutro pra eu não entrar no meio das pernas dela, eu forçava, mas levei esse arranhão aqui no peito. Daí eu dei uma porrada na cara dela que ficou amontoada em cima da cama. Pulei em cima, rasguei toda roupa dela, ficou bem peladinha, mas continuava gritando e esperneando, até que eu consegui sentar em cima duma perna dela e segurar a outra, daí enfiei o cano do meu revólver...ali...o senhor entende, e disse fica bem quietinha agora, e ela foi obedecendo, foi relaxando, e eu ali, o senhor sabe, eu ia dar o maior trato nela, ela parou de gritar, começou mexer a cabeça pra um lado e outro, e eu fui soltando de vagarinho, eu sabia o que ela queria, mas de repente ela puxou uma perna e me acertou um pontapé aqui no peito, e o revólver disparou. Aí eu louco de raiva apertei o gatilho mais uma vez pra ela não se fazer mais de gostosa pra cima de mim.  E foi assim que aconteceu, doutor. Ninguém queria matar ninguém. Foi tudo sem querer. &lt;br /&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/750798236973800089-6008914452786328799?l=prosaredo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosaredo.blogspot.com/feeds/6008914452786328799/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=750798236973800089&amp;postID=6008914452786328799' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/6008914452786328799'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/6008914452786328799'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosaredo.blogspot.com/2008/09/falha-humana.html' title='Falha Humana'/><author><name>Ademir Furtado</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12953829384435850908</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-v5Fh-h3qifE/TyqSJshfX4I/AAAAAAAAABU/Zx8z4MqJnlg/s220/ademir-01%255B1%255D.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-750798236973800089.post-3361003598506814154</id><published>2008-08-26T05:12:00.000-07:00</published><updated>2008-08-26T05:21:00.243-07:00</updated><title type='text'>A Enfermeira</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Eu não gosto muito de brincar aqui sozinho, mas hoje não tinha mais ninguém. Minha mãe é que manda eu pra cá quando vai trabalhar. Agora ela foi lá pra dentro, tem um homem que é amigo dela e veio fazer injeção. É, ela faz injeção. E acho que é muito boa, a gente já morou num monte de lugar diferente, mas eles sempre acham a nossa casa. Cada vez que a gente muda de casa ela avisa o endereço novo e eles vêm sempre atrás, eles gostam muito dela. Então, quando chega alguém, eu venho brincar aqui na pracinha. Tem aquele balanço ali, aquele escorregador. Quer ver como eu subo no escorregador correndo da ponta de baixo até lá em cima? Um dia eu caí e machuquei o braço, mas a mãe ainda não tinha terminado de trabalhar e eu não podia entrar em casa. Fiquei sentado naquele banco ali até que ela veio e me chamou, eu fui correndo porque doía, ela botou um curativo e no outro dia já tinha sarado o meu braço. Eu ainda não conheço nenhuma criança aqui da rua, por isso não tenho amiguinho pra brincar. Minha mãe, não. Ela tem bastante amigo, e eles sempre vêm onde a gente mora. Quando eu crescer vou ser enfermeiro e fazer curativo quando meu amigo ficar doente. Mas enquanto eu sou criança não é bom olhar, então, quando chega alguém, eu tenho que brincar na rua, porque é muito ruim ver uma pessoa fazer injeção. Se o homem vem de noite, então ela manda eu ir dormir, senão eu vou ter pesadelo, ela diz. E eu acho que é verdade. Uma noite eu levantei da cama no escuro e fui espiar na porta do quarto, e devia doer mesmo porque o homem gritava, e eu voltei correndo, me deitei e tapei bem a cabeça pra não ter sonho ruim. No outro dia eu me fingi de doente, mas eu queria é que ela fizesse uma injeção em mim pra ver se doía mesmo. Então eu pedi pra ela me mostrar como é que fazia, mas ela me mandou brincar na rua e disse que ia me dar uma palmada. Minha mãe é muito bonita e cuida muito de mim, até deixa eu dormir na cama com ela, mas se eu me faço de doente e peço pra ela fazer injeção, ela fica braba e me manda pra o meu quartinho. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quando chega alguém, eu vou brincar na rua e não incomodo. Só tem um que eu não gosto quando ele vem, ele trabalha o dia todo e só pode vir de noite. Acho que ele é muito doente porque ele fica bastante tempo, até de manhã, por isso eu tenho que dormir sozinho na minha cama. Ele chega, minha mãe até serve um café pra ele, aí eu já sei que tenho que ir pro meu quarto, então eu deito e tapo a cabeça pra dormir, mas nunca consigo pegar no sono porque eu não gosto dele e fico com raiva. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Mas por que a senhora quer falar com ela? A senhora é amiga da dona Leocádia, a vizinha lá da outra casa? A dona Leocádia é uma velha muito chata e muito ruim, que brigava muito com a minha mãe lá no edifício que a gente morava. Sabe o que ela dizia? Que a minha mãe era uma mentirosa, que tava mentindo pra mim, que o homem é que fazia injeção na minha mãe, e que um dia um homem daqueles ia ficar brabo e bater em mim. Daí ela dizia que a minha mãe era uma sem-vergonha, e que não podia mais atender ninguém em casa, que ela ia contar pra polícia e a minha mãe ia ver só. Mas era tudo mentira dela, minha mãe nunca ficou doente. Só que aí a gente teve que se mudar de lá. Eu moro ali naquela casinha de madeira. É bem pequena, mas mora só eu e a minha mãe. Faz pouco tempo que a gente se mudou. Meu pai nunca morou com a gente. Quando eu era um nenezinho ele arrumou um emprego muito longe e foi morar noutra cidade, daí eu nunca conheci ele, mas ela disse que eu sou muito parecido com meu pai, e quando eu crescer eu vou ir trabalhar com ele. No ano passado ela fez um curso de enfermeira que dá injeção, lá no centro. De noite ela ia pra aula e eu ficava com a minha vó, que era mãe dela, e ela chegava bem tarde, depois que eu já tinha dormido, acho que é porque a aula era muito difícil. Mas minha vó morreu e não tinha mais quem cuidasse de mim de noite, então minha mãe parou de estudar e ficou sempre em casa. Aí ela botou um anúncio no jornal pra quem quisesse fazer injeção era só ligar pra ela. Por isso que sempre vem um homem aqui. Mas quando eu ficar grande ela vai trabalhar no hospital, que lá vai bastante gente. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Na semana que vem eu vou pra escolinha, e vou morar sempre lá, até eu poder ficar em casa sozinho. E a minha mãe vai me visitar o dia que ela quiser. E quando eu sair de lá, vou trabalhar bastante pra ajudar minha mãe, e ela não vai precisar mais fazer injeção porque ela diz que dói muito. Mas até lá eu vou ficar sempre na escolinha. Minha mãe já falou com a professora. A senhora é professora da escolinha? Quando a minha vó era viva e ficava comigo de noite ela me mostrava um livro com figura de bicho e uma letra que imitava o bicho da figura, e eu aprendia a ler, já sabia o A, o M, mas depois que ela morreu eu não aprendi mais. É a senhora que vai me levar? É naquela Kombi que a senhora veio? Eu nunca andei de kombi. Minha mãe falou que o meu pai tem um carro bem grande e bem bonito, mas eu nunca vi. Se a senhora quiser, eu vou lá chamar ela, eu chego ali na porta e digo que tem uma mulher que quer falar com ela. Pode esperar aqui que eu vou correndo e já volto. Olha lá a minha mãe, já parou de trabalhar, agora já pode falar com ela.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/750798236973800089-3361003598506814154?l=prosaredo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosaredo.blogspot.com/feeds/3361003598506814154/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=750798236973800089&amp;postID=3361003598506814154' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/3361003598506814154'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/3361003598506814154'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosaredo.blogspot.com/2008/08/enfermeira.html' title='A Enfermeira'/><author><name>Ademir Furtado</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12953829384435850908</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-v5Fh-h3qifE/TyqSJshfX4I/AAAAAAAAABU/Zx8z4MqJnlg/s220/ademir-01%255B1%255D.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-750798236973800089.post-8999817435320701598</id><published>2008-07-22T07:09:00.000-07:00</published><updated>2008-07-22T07:24:55.448-07:00</updated><title type='text'>A volta dos que não foram</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;br /&gt;O marido que decide terminar o casamento, e abandona a família por vontade própria, sempre volta uma vez. Pode ser que essa crença seja uma adaptação, ao universo conjugal, do mito do eterno retorno. Certo é que quem parte deixa em seu rastro a possibilidade do regresso. O varão mais famoso a retornar, após vinte anos fora de casa, foi o grego Ulisses, que encontrou uma Penélope charmosa, passiva e submissa, esperando por ele. E não foi difícil ao esposo convencer a esposa de que a viagem era um voto de fidelidade a um amigo necessitado; e que a ausência prolongada foi inevitável: os navios se perderam no mar, por causa dos ventos, ciclopes, encantamentos de sereias, e outras tantas artimanhas dos deuses. Afinal, o rei era novamente o senhor do seu lar, e isso bastava.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;A saudade das coisas que ficaram para trás já inspirou muita composição poética e musical. Quem não lembra do rei Roberto Carlos, nos anos setenta, parado em frente ao portão, e, ao ver seu cachorro sorrir latindo, anunciar, aos berros: “eu voltei, agora pra ficar, porque aqui, aqui é meu lugar”?. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;O fato é que algumas coisas nunca desaparecem totalmente. O Indiana Jones, por exemplo, reapareceu, após 19 anos, e encontrou uma multidão de fãs ávida pelo estalido de seu chicote. É possível que a platéia, no anonimato da sala de cinema, sinta uma espécie de prazer ao se imaginar como alvo dos açoites do célebre arqueólogo. E isso já seria o suficiente para seu retorno ser comemorado com festa. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;O 007 também, com sua indefectível histrionice, não se ausenta por muito tempo, pois o homem comum precisa constantemente de um herói pra salvar esse pobre mundo, sempre em perigo. As ameaças são várias, e o vilão, tão prosaico quanto o herói que o enfrentará.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;Algumas pessoas ou fatos são como os bons atores, que conhecem bem seu ofício: desempenham seu papel histórico e abandonam o palco, deixando em seu lugar o eco dos aplausos e a esperança de um novo encontro em breve. Mas há, por outro lado, os fenômenos espúrios, assim como os canastrões que, por serem combatidos e escorraçados sob vaias, não conquistam o reconhecimento almejado. E sempre voltam. É o caso da inflação, por exemplo. E do Naji Nahas. Aliás, parece que essa dupla não se separa. Durante os anos oitenta, abria-se um jornal e lá estavam os dois, lado a lado, ocupando as primeiras páginas. A inflação mostrando que iria abocanhar nosso mísero salário, e o Nahas dizendo que já tinha surrupiado boa parte dele, através de negociatas com o dinheiro público. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;Pois agora, após alguns anos de tranqüilidade quanto aos nossos parcos rendimentos, vem novamente o dragão inflacionário zombar de nossa paciência, rondando nosso portão, imitando sofrivelmente aquele refrão: “eu voltei”. Não bastasse isso, os noticiários sobre corrupção ostentam diariamente a imagem que há menos de vinte anos era tão popular. O indestrutível, o infalível Naji Nahas. Ele e mais uma camarilha que vive há anos à sombra do poder, sempre chafurdando em trapaças e lavagem de dinheiro. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;Com tanta notícia sobre roubalheira e corrupção, envolvendo políticos e empresários, quem deve andar morrendo de inveja, e louco pra entrar em cena novamente, é o Collor de Mello. Está na sala de espera, já ensaiando alguns passos de entrada. Só esperando uma oportunidade pra reivindicar seu antigo posto de comandante da quadrilha. E do jeito que as coisas vão, não é de se surpreender que seu desejo se realize em 2010. É possível até se imaginar os discursos. Ele vai dizer que sua expulsão, alguns anos atrás, foi conseqüência de um ato de cegueira, causada pelo canto das Sereias, aquelas mesmas que fizeram o grego Ulisses se atrasar por tanto tempo. E qual uma Penélope ingênua, pronta a acreditar no que quer ouvir, Brasília se enfeitará para uma grande festa de recepção. E Fernando Collor voltará triunfante para o lugar de onde, na verdade, nunca saiu. Deus queira que ele não lembre do Roberto Carlos.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/750798236973800089-8999817435320701598?l=prosaredo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosaredo.blogspot.com/feeds/8999817435320701598/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=750798236973800089&amp;postID=8999817435320701598' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/8999817435320701598'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/8999817435320701598'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosaredo.blogspot.com/2008/07/volta-dos-que-no-foram.html' title='A volta dos que não foram'/><author><name>Ademir Furtado</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12953829384435850908</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-v5Fh-h3qifE/TyqSJshfX4I/AAAAAAAAABU/Zx8z4MqJnlg/s220/ademir-01%255B1%255D.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-750798236973800089.post-5195476648420583597</id><published>2008-07-19T08:49:00.000-07:00</published><updated>2008-07-19T08:53:01.283-07:00</updated><title type='text'>Me apresentando</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Resisti o quanto pude...&lt;br /&gt;Mas, mais não pude.&lt;br /&gt;Por isso estou aqui, começando uma nova fase: a conexão com o mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha pretensão é escrever crônicas, contos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Propor debates, divulgar idéias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estabelecer contato com gente de toda parte&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“se a tanto me ajudar o engenho e arte”&lt;br /&gt; &lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/750798236973800089-5195476648420583597?l=prosaredo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosaredo.blogspot.com/feeds/5195476648420583597/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=750798236973800089&amp;postID=5195476648420583597' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/5195476648420583597'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/750798236973800089/posts/default/5195476648420583597'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosaredo.blogspot.com/2008/07/me-apresentando.html' title='Me apresentando'/><author><name>Ademir Furtado</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12953829384435850908</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-v5Fh-h3qifE/TyqSJshfX4I/AAAAAAAAABU/Zx8z4MqJnlg/s220/ademir-01%255B1%255D.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry></feed>
